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segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Falando em estudo bíblico...

1. FONTES PRIMÁRIAS E SECUNDÁRIAS PARA ESTUDOS BÍBLICOS AVANÇADOS
- PAPIROS BODMER: é um grupo de vinte e dois papiros descoberto no Egito em 1952. Eles foram assim nomeados depois que Martin Bodmer (1899 - 1971, bibliófilo, estudioso e colecionador) os comprou. Os papiros contêm segmentos dos dois Testamentos e de algumas literaturas cristãs antigas. O mais antigo, P66, data de 200 d.C. Os papiros pertencem a Biblioteca Bodmeriana, em Cologny, na Suíça. Em 2007 a Biblioteca do Vaticano adquiriu dois dos papiros, P74 e P75.
* Manuscritos gregos:
- CODEX SINAITICUM (א, 01): é uma antiga cópia da Bíblia grega (AT e NT). Pertence ao texto padrão alexandrino, foi escrito no século IV d.C em letras maiúsculas em pergaminho. Foi descoberto no século XIX no Monastério grego do Monte Sinai. Embora partes do Códice estejam espalhadas em quatro bibliotecas ao redor do mundo, a maioria do manuscrito hoje está na Biblioteca Britânica.
- CODEX VATICANUM (B, 03): é um dos manuscritos mais antigos da Bíblia grega (AT e NT). O Códice é assim nomeado porque pertence à Biblioteca do Vaticano onde foi colocado desde o século XV d.C. Está escrito em grego, com letras maiúsculas, e foi paleograficamente datado do século IV dC. Os estudiosos o consideram um dos melhores textos gregos do Novo Testamento.
- CODEX (CÓDICE) BEZAE (D, 05): é um códice do Novo Testamentodatado do século V escrito em maiúsculas. Contém grande parte dos quatro Evangelhos e Atos, além de um pequeno fragmento da 3Jo, medindo 26 x 21.5 cm, com o texto grego na face esquerda e o texto latino à direita. Faz parte do texto padrão Ocidental. Durante os motins das Guerras de Religião no século XVI, quando análise textual se tornou urgente para os protestantes da Reforma, o manuscrito foi levado de Lyon em 1562 e entregue ao estudioso protestante Theodore Beza, o amigo e sucessor de Calvino que o doou para a Universidade de Cambridge, Inglaterra e ainda hoje permanece na Biblioteca daquela universidade.
** Manuscritos hebraicos
- CODEX ALLEPO EM FACSIMILE: O Códice de Aleppo (Keter Aram Tzova) é um manuscrito medieval da Bíblia hebraica. O códice foi escrito no século X d.C. Alguns testemunhos mostram que o Códice de Aleppo foi consultado por estudiosos judeus ao longo da Idade Média, e estudos modernos mostraram que ele pode ser a representação mais precisa dos princípios Masoréticos de qualquer manuscrito existente. Durante a Primeira Cruzada, a sinagoga foi saqueada e o códice foi transferido de Jerusalém para o Egito, pois os judeus pagaram um alto preço por seu resgate. Foi preservado na sinagoga do Cairo onde foi consultado por Maimonides. Em 1375, um de descendentes de Maimônides o trouxe para Aleppo, Síria, de onde vem sua atual designação. Em 1958, quando foi contrabandeado para Israel e hoje se encontra na Universidade Hebraica de Jerusalém.
- CODEX DE LENINGRADO: O Códice de Leningrad (ou Códice Leningradensis) é o manuscrito completo mais antigo da TANAK com texto masorético. É datado de 1008 de acordo com seu colofão. Atualmente seu texto está reproduzido na Bíblia Hebraica (1937) e Bíblia Hebraica Stuttgartensia (1977). Também é útil para os estudiosos como fonte primária para a recuperação das partes perdidas do Códice Aleppo. O Códice de Leningrado é assim nomeado porque foi pertence à Biblioteca Nacional da Rússia em São Petersburgo desde 1863. Depois da Revolução Russa os estudiosos o nomearam de Códice de Leningrado. A pedido da Biblioteca o termo Leningrado foi mantido até mesmo depois que o nome original da cidade foi restabelecido depois da dissolução da União Soviética.
*** Textos aramaicos (ou versões críticas para línguas modernas)
- TARGUM NEOPHYTI (BIBLINGUE): paráfrase da Bíblia hebraica em aramaico que data entre os séculos III e VIII d.C. Foi descoberto em 1949 por Alejandro Diez Macho na Biblioteca dos Neófitos em Roma.  As paráfrases do Targum Neophyti são significativamente diferentes daquelas do Targum Onkelos. Elas são consideravelmente mais expansivas. O idioma do Targum Neophyti é convencionalmente conhecido como aramaico palestino em vez do aramaico babilônico do Targum Onkelos.
- TARGUM ONQELOS (DO PENTATEUCO) EM INGLÊS E EM FRANCÊS*: é o targum oriental (babilônico) oficial da Torah.  Alguns identificam essa tradução como trabalho de Áquila de Sinope, daí o nome Onqelos.  O tradutor é único em evitar qualquer tipo de antropomorfismo para Deus. Antigamente o Targum Onqelos era recitado de cor como tradução de versículo por versículo enquanto se proclamava a Torah na sinagoga.
- TARGUM JONATHAN EM INGLÊS*: É uma paráfrase dos Nebiîm em aramaico. Seu início se deu em Jerusalém, mas foi terminado na Babilônia no início do século II d.C. O Talmud atribui a Jonatan ben Uzziel a tradução dos Nebiîm para o aramaico.
- Textos em outros idiomas antigos ou versões críticas de textos antigos
- ANTIGO TESTAMENTO EM SIRÍACO (Peshitta): é a versão padrão da Bíblia no idioma siríaco. O nome “Peshitta” significa "versão simples". O Siríaco é um dialeto, ou grupo de dialetos, do Aramaico oriental. O AT e o NT da Peshitta são dois trabalhos de tradução completamente distintos. O AT Peshitta é a parte mais antiga da literatura siríaca de todos os tempos, com a provável origem no século II d.C traduzido diretamente do hebraico anterior ao texto massorético. O NT foi traduzido do grego no século III.
- ARQUEOLOGIA DA ALTA MESOPOTÂMIA (EDIÇÃO CRÍTICA):útil para os estudos da Torah e dos Livros Históricos.
- RAS SHAMRA: A atual Ras Shamra chamava-se Ugarit. Foi uma antiga e cosmopolita cidade portuária, situada na costa mediterrânea do norte da Síria. O apogeu da cidade ocorreu de cerca de 1450 a.C até 1200 a.C. Em 1928 um camponês abriu acidentalmente uma tumba antiga enquanto arava o campo. As escavações descobriram um palácio real de 90 quartos e duas bibliotecas que continham textos diplomáticos, legais, econômicos, administrativos, acadêmicos, literários e religiosos. No topo do morro onde a cidade foi construída estavam dois templos principais: um dedicado a Baal e um a Dagon.
- BÍBLIA KITTEL: O hebraísta Rudolf Kittel publicou na Alemanha, duas edições de Bíblia Hebraica, sendo a primeira em 1906 e a segunda com pequenas revisões em 1913. Mais tarde, quando se tornaram disponíveis os textos massoréticos do Códice de Leningrado, Kittel  produzir uma terceira edição da Bíblia Hebraica, que teve um texto hebraico um pouco diferente e algumas notas de rodapé revisadas. Foi a primeira vez que uma Bíblia levou em conta o texto do Códice de Leningrado.
- BÍBLIA STUTTGARTENSIA: totalmente baseada no Códice de Leningrado publicada pela Sociedade Bíblica Alemã em Stuttgart. É uma revisão da terceira edição da Bíblia Hebraica editada por Rudolf Kittel. As notas de rodapé foram totalmente revisadas. Essas notas foram sendo acrescentadas aos poucos desde 1968.
- SEPTUAGINTA: A tradução do Antigo Testamento para o grego, acrescida de mais sete livros originariamente escritos em grego. É muito importante para os estudos bíblicos porque em vários casos, os pergaminhos do mar morto estão de acordo com a LXX e diferentes do texto massorético. Os mais antigos códices da LXX (Vaticanus e Sinaiticus) datam do século IV AD. A edição mais importante é a romana ou sistina, que reproduz exclusivamente o Codex Vaticanus. Foi publicada pelo Cardeal Caraffa, com a ajuda dos vários peritos, em 1586, autorizado pelo Papa Sisto V, para ajudar nas revisões em preparação da Vulgata Latina, requisitada pelo Concílio de Trento.
- BÍBLIA POLIGLOTA COMPLUTENSE: é a edição oficial da LXX, baseada em manuscritos atualmente perdidos, é considerada bastante próxima aos mais antigos manuscritos.
- VETUS LATINA: é um nome coletivo dado aos textos bíblicos em latim que foi traduzido antes da Vulgata de São Jerônimo e se tornou a Bíblia padrão para os cristãos ocidentais de língua latina. A expressão Vetus Latina significa Bíblia Latina Velha (em oposição à Vulgata) e não que tenha sido escrita em latim antigo, ao contrário  trata-se de latim recente.
2. FERRAMENTAS PARA ESTUDOS AVANÇADOS:
- SINOPSIS DOS 4 EVANGELHOS, CONCORDÂNCIA, APARATO CRÍTICO.
3. LITERATURA RABÍNICA
Talmud e Midrash
Ir Aila Luzia, NJ (Doutora em Bíblia, Filósofa, Teóloga, professora da Faculdade Católica de Fortaleza e superiora do ramo feminino do Instituto Religioso Nova Jerusalém)

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Curso Profetas Profetismo em Chave Histórica

Período: 05, 12 e 19 de novembro de 2011 aos sábados de 08h às  12h (12h/a)
Facilitadora: Profa. Dra. Ir Aíla Luzia Pinheiro de Andrade
Local:  Faculdade Católica de Fortaleza – Rua Tenente Benévolo, 201
Informações: (85)3453-2150
Cartaz_profetas_2011

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Dois irmãos

*Aíla L. Pinheiro de Andrade, nj

Numa leitura superficial sobre Caim e Abel, Deus aparece como um sanguinário que provoca o primeiro assassinato. Mas a base desse texto é a crença de que a vida (vegetal, animal, humana) vinha de Deus e por isso se fazia oferenda em reconhecimento disso. Para a Escritura a oferenda não podia ser apenas para se evitar um castigo de Deus. No texto bíblico não parece que o Criador abençoe uma oferta de sangue em vez de vegetais. O que o texto diz é o seguinte: Caim: “trouxe do fruto da terra uma oferta” (Gn 4,3) e não as primícias. Ou seja, apenas cumpriu um ritual para assegurar a colheita do ano seguinte.

“Abel, por sua vez, trouxe das primícias do seu rebanho e da gordura (em hebraico: lev = coração)" (Gn 4,4). Abel trouxe o melhor. O único sangue que aparece neste texto é o de Abel (v. 10). Esse texto quer falar de inveja, de ganância e de pessoas que usam a religião em função dos próprios interesses. Não há nenhuma referência a um Deus sanguinário, mas a um homem sanguinário. A tradição popular de Caim e Abel falava do difícil processo de sedentarização dos hebreus, principalmente por causa do Quenitas (Caim) que eram muito violentos.

Trata-se de um conflito entre povos. O pastor é nômade porque a vida dele está nos rebanhos ao qual ele deve acompanhar. O agricultor é sedentário porque toda a riqueza dele está na semente que depositou no solo e que ele defende a qualquer custo. Para o pastor a terra foi doada por Deus a todas as pessoas e quem não partilha a terra está sendo ambicioso.

Vejamos esse mito em três versões:

1) A versão do agricultor: Era uma vez os deuses sumérios Dumuzi, o pastor, que competiu com Enkimdu, agricultor, pelo amor de Inanna. Esta escolheu Dumuzi como marido. Por causa da ambição dela (desejo de trazer o mundo inferior sob seu domínio), Inanna decidiu descer ao mundo inferior, no qual ficou presa. E Enkimdu fez magias pelas quais Inanna foi estabelecida à vida. Entretanto havia uma lei no mundo inferior que ninguém poderia ser devolvido à superfície sem prover um substituto. E Dumuzi, o marido devia substituí-la. Só que Dumuzi não podia ser mantido lá para sempre e voltava a cada primavera. E assim Dumuzi passou a ser considerado Tammuz, responsável pela fertilidade do solo.

2) A versão do Pastor: Era uma vez Caim (EnKimdu) e Abel (Dumuzi) que competiam pelo amor do SENHOR. Parece que o problema não foi a oferta, mas o coração do ofertante. Naquele contexto era impossível conciliar pastores e agricultores, inimigos mortais, pois ovelhas invadiam as plantações, mas o autor bíblico teve a coragem de afirmar: “O pastor (Abel) e o agricultor (Caim) são irmãos”.

Essa narrativa bíblica parece ser do mesmo contexto de Is 56, quando se propõe uma abertura religiosa. Uma época em que os judeus já estão há bastante tempo no exílio da Babilônia. O mais importante para aqueles que estão no estrangeiro é ser luz para as nações e não guerrear com elas. Por isso o autor, do texto de Caim-Abel, no exílio, diz *somos irmãos*. Lembremos que a Babilônia foi acusada de ambiciosa e invejosa (2Rs 20,15). A Babilônia seria Caim e Judá seria Abel.

No processo histórico, o nomadismo veio antes da sedentarização, no entanto, a narrativa nos diz como o SENHOR castigou Caim: “serás fugitivo e errante pela terra. Então, disse Caim ao SENHOR: É tamanho o meu castigo, que já não posso suportá-lo. Eis que hoje me lanças da face da terra, e da tua presença hei de esconder-me; serei fugitivo e errante pela terra; quem comigo se encontrar me matará” (Gn 4,12-14).

Então:
a) Aquele que era sedentário se tornou nômade (errante). O inverso (proposital) do processo histórico. Deus estaria dizendo: Caim
(sedentário) seu castigo será viver a vida que você tirou do seu oponente (nômade). Pois, somente se colocando no lugar do outro é que poderá entendê-lo;

b) O texto dá uma dica clara sobre o contexto histórico, perguntemos: para quem “ser lançado para fora da terra” é um castigo insuportável? O judeu fora de Israel. Viver errante é viver no exílio, na diáspora. No final, tanto Abel, quanto Caim, são apenas duas faces da mesma moeda, ou da mesma pessoa.

3) A versão de Jesus: Era uma vez um homem que tinha dois filhos (Lc 15,11). O mais novo "se mandou pelo mundo", e gastou tudo numa vida dissoluta. Depois que a "grana" acabou e os “amigos” sumiram, ele voltou para casa, confiando no amor de seu pai. Este ficou feliz, mandou matar o novilho cevado (o melhor) para o filho. Será que tem alguma coisa a ver com Abel também ter dado o que tinha de melhor? Mas, o filho mais velho, voltando do campo (Lc 15,25, era agricultor) ficou indignado: “nunca mataste um cabrito pra mim?” (Lc 15, 29) (inveja e ambição). E acusou o irmão de gastar o patrimônio da família com prostitutas (Lc 15,30). Exagero muito comum aos judeus mais rigorosos, acusar os judeus da Diáspora e os gentios em geral de idólatras (= prostituição). A primeira parte da parábola apenas afirma que o filho mais novo foi dissoluto, que os amigos só duraram enquanto a grana durou e que ele sofreu muito. Mesmo assim o pai quer bem aos dois por igual.

A parábola do Filho pródigo deve ser estudada no contexto das outras duas parábolas dos perdidos: a ovelha e a moeda. O contexto é de um debate entre Jesus e alguns escribas Lc 14. O evangelista quer mostrar que Jesus contou algumas parábolas para explicar seus argumentos aos opositores. Jesus aproxima-se dos pecadores porque esta é a vontade do Pai Criador. Esta vontade já estava expressa na releitura bíblica dos mitos antigos e nas Escrituras dos Judeus.

O texto de Caim e Abel é um mashal para dizer aos judeus da época que os babilônicos ou qualquer outro adversário deve ser considerado irmão. É verdade que há violência entre as pessoas, mas Deus nos fez irmãos e não inimigos eternos como afirmava o mito antigo.

Bem, os três textos falam de conflitos e discórdias. O texto de Gn não é apenas a versão pastoril. O SENHOR ama Caim e ama Abel, só que a ferta de Caim não valeu, pois não veio do coração. Não adianta só cumprir um ritual. O filho mais velho do texto de Lc também cumpre tudo (Lc 15,29) e não ama, nem uma vez pronuncia a palavra PAI.

Os dois textos bíblicos dizem: somos irmãos. Deus não quer guerra entre pastores e agricultores, eles não são inimigos, são irmãos. IRMÃO, palavra mais repetida no texto de Caim e Abel. Deus não quer guerra entre as etnias, nações e religiões. Jesus não quer a discórdia entre seu seguidores e o povo a que ele pertence (Lc 15,1-2).


* Aíla L. Pinheiro de Andrade é membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica. Leciona na Faculdade Católica de Fortaleza e em diversas outras faculdades de Teologia e centros de formação pastoral. 

Fonte: Blog da Nova Jerusalém

terça-feira, 5 de julho de 2011

O Espírito Santo e Maria

Aíla L. Pinheiro de Andrade,nj*

“Concebido pelo Espírito Santo e nascido da Virgem Maria” é uma das afirmações da profissão de fé cristã quando trata sobre a Encarnação.

Quando estávamos em preparação para o Jubileu da Encarnação, na expectativa do ano 2000, tivemos um ano dedicado a uma catequese sobre o Espírito Santo em 1998.

O enfoque da celebração do terceiro milênio foi o da concepção e nascimento de Jesus Cristo tornada possível pelo poder do Espírito Santo e pela cooperação da Virgem Maria. A concentração numa “reciclagem” catequética sobre o Espírito Santo deveria constituir também uma devoção mariana mais sólida, mais vinculada ao seu papel em relação a Jesus e em relação ao Espírito Santo.

O Espírito Santo é o guardião da esperança no coração humano, por isso houve uma especial atenção à virtude teologal da esperança em 1998. Nas Escrituras, Maria é a mulher dócil à voz do Espírito, a mulher que esperou contra toda esperança. Em Maria, a Igreja vê “um sinal da esperança segura” (LG 68), ela foi “plasmada pelo Espírito Santo e formada nova criatura” (LG 56). Enfim, a Igreja deve ser aquilo que Maria é. E enquanto peregrina neste mundo a Igreja tem Maria como um sinal “até que chegue o Dia do Senhor” (LG 68).

Há dois textos nas Sagradas Escrituras que tratam diretamente sobre o Espírito Santo e Maria:

a) Mt 1,18-20
As circunstâncias do nascimento de Jesus é uma ação do Espírito Santo sobre Maria (v.18), “o que nela foi gerado vem do Espírito Santo” (v.20). Há um testemunho do narrador (v.18) e um testemunho do céu (v.20) de que Maria está sob a ação do Espírito Santo para que Jesus venha a nascer. A justiça de José ou a inocência de Maria são aspectos secundários. O mais importante é a docilidade de ambos à ação do Espírito Santo. No caso de Maria há uma colaboração, ela corre risco de ser morta. O casal é um testemunho para a Igreja: deixar-se guiar e colaborar, mesmo que isso exija a morte ou a mudança de mente (conversão).

b) Lc 1,35
Primeiramente, menciona-se a descida do Espírito Santo sobre Maria. Isso nos remete a Ex 3,8 quando se afirma que Deus desceu para livrar o seu povo do faraó e para fazê-lo subir à terra prometida. Depois é dito que “o poder do Altíssimo” cobrirá Maria. Isso está vinculado com a criação, quando o Espírito pairava sobre as águas (Gn 1,2). O Espírito cobrirá Maria com sua sombra, isto nos remete à nuvem (shekiná) no deserto cobrindo a Tenda do Encontro (Nm 9,15).

No evento de Pentecostes o Espírito Santo permanece Deus misterioso ou escondido (Is 45,15) e assim ele permanecerá ao longo de toda a história da Igreja e do mundo. Pode-se dizer que ele está escondido na sombra de Cristo. Ele é o Deus escondido que trabalha em silêncio e no interior. A narrativa sobre o Pentecostes em At 2,1-13 indica que quando se trata do Espírito Santo há somente a observação dos efeitos de sua presença e de sua ação em nós e no mundo. O mesmo efeito pode causar estupefação em uns (2,12) e zombaria em outros (2,13).

Na tradição religiosa de Israel, o Pentecostes era originalmente a festa dos primeiros frutos da colheita (Ex 34,22). O Antigo Testamento dá instruções detalhadas para a celebração do Pentecostes (Lv 23,15; Nm 28,26-31), que mais tarde tornou-se também a festa da renovação da aliança (2 Cr 15,10-3). A narrativa sobre Pentecostes em At 2,1-13 está vinculada ao relato sobre a comunidade dos reunida no Cenáculo onde todos unânimes “perseveravam na oração com algumas mulheres, entre as quais Maria, a mãe de Jesus” (At 1, 14). Uma leitura cuidadosa de Atos nos diz que havia homens e mulheres, e o momento do Pentecostes representado apenas pelos doze ou pelos doze e Maria omite um importante ensinamento sobre a manifestação do Espírito na Igreja. Isso significa que, no Novo Testamento, a festa da colheita torna-se a festa da “nova colheita” do Espírito Santo, o fruto da semente lançada por Cristo.

O texto da anunciação tem uma correlação com o texto sobre o Cenáculo e Pentecostes. Na anunciação Deus dá o seu Espírito a Maria a qual não é apenas a imagem (Abbild = reflexo) mas também a imagem típica (Urbild=protótipo) da Igreja. Em Pentecostes acontece com a Igreja o que aconteceu com Maria na anunciação e por isso a Igreja torna-se fecunda, gera o Cristo para as nações através do anúncio do evangelho em todos os idiomas.

Em 1974 o Papa Paulo VI escreveu um documento (Marialis Cultus (MC)) sobre a devoção a Maria, que continua a ser a norma para a devoção mariana entre os católicos. Depois de normatizar a devoção mariana em função de Cristo, o Papa destaca em dois números (MC 26 e 27) relaciona a mesma devoção em relação ao Espírito Santo. Isso significa primeiramente que não pode haver culto a Maria em si mesma.

No número 26 o Papa começa afirmando que “a intervenção santificadora do Espírito no caso da Virgem de Nazaré foi um momento culminante da sua ação na história de Salvação”. E, em seguida, lembra que Maria “se torna habitação permanente do mesmo Espírito”. Isto é, em Maria se diz o mesmo que se dizia para a arca da aliança [1].




“O mesmo verbo exprime a posição da nuvem sobre o tabernáculo e a do Altíssimo sobre Maria”. O tabernáculo fica cheio da glória, Maria fica cheia da presença do Filho de Deus.




_________
[1] MARTINS TERRA, João Evangelista. Releitura Judaica e cristã da Bíblia, São Paulo: Loyola, 1988, p. 24-25.

* Aíla L. Pinheiro de Andrade é membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica. Leciona na Faculdade Católica de Fortaleza e em diversas outras faculdades de Teologia e centros de formação pastoral.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Reflexões para Semana Santa.



Aíla L. Pinheiro de Andrade,nj*

A última secção do Apocalipse (21, 1—22, 5) faz um díptico com o relato da criação do Gênesis. Se a primeira palavra de Deus no Gn foi “faça-se” (Gn 1, 3), a primeira palavra emitida pelo que está sentado no trono é: “Faço tudo novo” (Ap 21, 5). O primeiro céu e a primeira terra desaparecem (v. 1), dando lugar a uma nova criação. O autor insiste em incutir a novidade, repetindo o termo até quatro vezes: vv. 1 (duas vezes), 2 e 5.

O mar, símbolo do caos, das forças adversas (Gn 1), já não existe (Ap 21,1). Deus, por meio de Cristo, destruiu o Adversário definitivamente (Ap 20, 1-10; cf. Is. 27, 1; 51, 9 s.; Sl 74, 13 ss.; Jó 26, 12 s.). Toda prova, toda tentação, acabou. Tudo é definitivo. Abatidos os inimigos, instaura-se o Reino de Deus, a nova humanidade na qual não há pecado, nem tropeço em provação alguma.

A nova Jerusalém não é feita de material inanimado, mas personifica a nova “cidade” dos que foram salvos. Com sua descida do céu, a totalidade do cosmos fica incorporada ao âmbito de Deus. Uma nova relação se instaura, se inaugura o novo noivado de Deus com o povo no gozo e na alegria (Os 2, 16-25; Jr 2, 1-3; Is 61, 10; 62, 4ss).

Essa noiva é a morada do Senhor. A nova Jerusalém, agora é a plenificação da presença de Deus no deserto, onde a nuvem era o símbolo da presença divina (sekinah), que baixava sobre a Tenda (Nm 9,15-23). Na nova Jerusalém o simbolismo se faz realidade: a morada não é a Tenda, mas o novo povo no qual Deus é uma presença plena.

A felicidade reina no novo povo (Ap 21, 4) porque foi eliminado todo tipo de dor, guerras, perseguições e morte (cf. também 22, 3-5). Aqui o livro chega a seu clímax: na luta contra o Adversário, a comunidade vencerá apesar das dificuldades de cada época. O Deus criador é também a meta última de todo ser criado. As fontes humanas de felicidade não saciam a sede; somente o encontro definitivo com Deus poderá satisfazer todo anseio humano.

Quando o Adversário sedutor for julgado (Ap 20, 10.15), quando tiver desaparecido o cenário no qual se desenvolveu a tragédia do pecado (20,11), quando já não existir o velho mundo no qual reina a dor e a morte, quando desaparecer tudo que representa o caos ou a esterilidade, então se cumprirá a visão da nova terra e do novo céu. Desaparecerá o mar, isto é, o caos e surgirá uma nova criação. A morada de Deus e a morada do ser humano serão a mesma, o céu e a terra se reconciliarão. Serão cumpridas, por fim, todas as profecias (cf. Is 65,17ss; 66, 22).

Se, em outro tempo, Israel experimentou a presença de Deus no deserto, aquilo foi apenas uma pálida imagem do que agora se anuncia: porque Deus habitará definitivamente entre todos os homens e, todos os povos serão um mesmo povo na presença de Deus (Ap 7,9), porque já não haverá pranto, nem morte, nem dor alguma.

O cristão sempre tem diante de si a utopia do novo céu e da nova terra. Não pode conformar-se com a injustiça, com nenhuma mentira, com qualquer dor gratuita. Buscará sempre o Reino de Deus.

O mundo novo não supõe a destruição apocalíptica deste, mas sim sua transformação progressiva. A vida nova já está enxertada neste mundo. O Reino de Deus já está dentro de nós. Assim como o deserto esconde em si a fertilidade que brota durante a chuva.

A Tenda do deserto foi sinal desta presença salvadora de Deus no meio de seu povo. Jesus Cristo, Palavra de Deus feita carne, é a realização suprema deste divino estar-com-os-homens: “E habitou (literalmente: “fincou sua Tenda”) entre nós” (Jo 1,14). Na Jerusalém do céu tudo está penetrado pelo que a Tenda significava: a perene presença de Deus. A bem-aventurança, dom gratuito de Deus, é a herança dos fiéis; e muito mais, é o cumprimento das promessas messiânicas feitas a Davi e que agora se estendem a todos os que participam da relação amorosa entre o Deus e o Cordeiro imolado/ressuscitado.

É isso que se expressa no pacto novo e definitivo firmado entre Deus e o ser humano. As bodas do Cordeiro são o seu sinal. Todos os povos agora fazem parte do povo de Deus em Jesus Cristo. Quando se efetivar plenamente esse ideal, a cidade será sagrada: não terá templo, porque Deus habitará no meio de seu povo (Ap 21,22).

* Aíla L. Pinheiro de Andrade é membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica. Leciona na Faculdade Católica de Fortaleza e em diversas outras faculdades de Teologia e centros de formação pastoral.