Capela ("Capela da Jangada") do Instituto Religioso Nova Jerusalém
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quarta-feira, 9 de novembro de 2011
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
Viver a Santidade em tempos de pós-modernidade
Ir. Narcélio Lima, NJ*
RETORNO ÀS ORIGENS
A palavra consagração vem da língua latina: a preposição cum = “com” e o adjetivo sacro = “sagrado”. A consagração, literalmente seria, portanto, aquilo que torna sagrado. Pode significar algo ou alguém que é santo/ separado. O conceito que se tem de consagração, em especial na linguagem do Antigo Testamento, é familiar ao termo kadosh (santo), ou seja, na linguagem bíblica, para se referir ao sagrado usa-se a palavra ‘santo’, portanto, vale dizer que uma coisa sagrada é uma coisa santa (perfeita). “Não podereis servir a Javé, porque é Deus santo, é Deus ciumento, que não perdoará vossas rebeldias nem vossos pecados!” (Js 24,19). Aqui fala-se num contexto de Aliança, onde os ciúmes de Deus são a forma de ele expressar sua santidade, ele não tolera a competição nem a concorrência na entrega do amor leal, exige serviço exclusivo e total; ao não responder o povo assim, seu ciúme se inflamará e “acabará convosco depois de ter-vos feito tanto bem” (v. 20). “Agora, porém, se deveras escutais minha voz e guardais minha aliança, vós sereis MINHA PROPRIEDADE PESSOAL entre todos os povos, porque é minha toda a terra, sereis para mim um reino de SACERDOTES e uma NAÇÃO SANTA” (Ex 19,6). Existe uma relação muito íntima entre DEUS e seu POVO, daí podemos entender a ideia de pertença e consagração. Deus mostra sua soberania, dá a liberdade a esse povo e exige deste o comportamento ético, condição irrenunciável para ser sempre um povo santo, daí nasce o decálogo (dez mandamentos): para uma necessidade de testemunho público. O nome de Deus é santo, o seu santuário é santo, a cidade é santa (por isso é chamada Terra Santa), o culto, que deveria ser acompanhado de rituais de purificação, o seu ESPÍRITO SANTO, Jesus mesmo é chamado de O Santo de Deus… A sua Lei é uma lei de santidade (Lv 17-26). Deus pede isso do homem: “Sede santos, porque eu, Javé, sou santo” (Lv 19,2) e ainda: “Vós, porém, vos santificareis e sereis santos, pois eu sou o Senhor vosso Deus” (Lv 20,7). A Lei de Santidade contempla, sem dúvida, uma relação muito estreita entre a santidade de Deus e a santidade do povo.
Para nós cristãos, ver a consagração no NT é chegar a uma denominação fundamental, pois ele concretiza as conseqüências imediatas entre Deus, o Espírito Santo e a sua Igreja. Nele, as realidades e mediações sacras mais importantes são transformadas pela vinda de Jesus, por exemplo: a lei, o templo, a morte (sua morte), o tempo, a palavra e os alimentos. Jesus é o cumprimento total das Escrituras e a radicalização, a maneira de superação de todos os dados revelados graças a sua “perfeição”. De agora em diante só existe uma realidade sagrada que é o CORPO DE JESUS CRISTO: “À Palavra se fez carne, e pôs sua morada entre nós, e vimos sua glória, glória que recebe do Pai como Filho único, cheio de graça e de verdade” (Jo 1,14). Com esta audaciosa afirmação, a Igreja crê, uma vez por todas que o Corpo de Jesus Cristo é o único lugar em que se encontra Deus: “Nele reside toda plenitude da divindade corporalmente” (Cl 2,9), e os cristãos compartilham essa plenitude. JESUS É O SANTO, hosios no grego. A Igreja se dirige a Deus chamando Jesus “teu Santo” = hagion, “servo-filho-servidor” (At 4,27-30), o “Santo de Deus ” (Mc 1,24; Jo 6,69). “Assim é o Sumo Sacerdote que nos convinha: santo, inocente, incontaminado, apartado dos pecadores, elevado acima dos céus” (Hb 7,26).
Na Bíblia, tudo se torna sacro ou consagrado quando recebe o toque do Espírito, por esse “toque”, tudo é transformado.
O HOJE DE DEUS E O NOSSO HOJE
A Modernidade foi um movimento que surgiu mais ou menos no século XII. Ela está muito ligada ao surgimento das universidades e ao espírito crítico-científico desenvolvido pelas mesmas universidades. Daqui nasce o fenômeno da secularização. A religião não perde seu lugar, porém se torna intimista, “subordinada” aos critérios da política e da sociedade. Desenvolveu-se uma visão puramente humana e científica das coisas: o que antes era algo positivo, passa a ser um problema. Deus aqui não é esquecido, porém se dá pouco importância ao que é sagrado, o que é pior que o ateísmo (indiferença religiosa). Com a religiosidade diversificada, a busca pelas seitas e religiões orientais é concretizada pelo simples fato de que suas filosofias não exigem compromissos mais rigorosos, especialmente no lado moral. É dessa ideia que surge o que conhecemos por NOVA ERA, que busca formar uma super-religião, eliminando todas, inclusive o cristianismo. O êxodo rural, o esfacelamento da família, que dificulta a catequese cristã e a marginalização afastam as pessoas da comunidade cristã.
Nossa Constituição traz logo em seu terceiro parágrafo, onde nosso fundador define o Instituto, o contexto histórico-cultural de nosso tempo, situando as duas guerras mundiais, fomentadas por povos que se denominam ‘cristãos’. A Igreja da América Latina questionou a evangelização de cunho europeu e reivindicou uma evangelização concreta e específica para nossa realidade.
§4. “Desse desafio nasceu a Nova Jerusalém!”
§5. “Se bem que tem raízes cistercienses (beneditinas), A NOVA JERUSALÉM QUER SER UM INSTITUTO NOVO, PARA RESPONDER ÀS NECESSIDADES NOVAS NUM CONTINENTE NOVO”.
Na solenidade de Todos os Santos de 2006, o Santo Padre Bento XVI deixou-nos uma mensagem que poderá ajudar a compreender melhor a vocação à santidade em nossos dias. Inicia com o pensamento de São Bernardo: “Os nossos santos não precisam das nossas honras e nada recebem do nosso culto”. E continua:
“Para ser santo não é preciso realizar obras extraordinárias, nem possuir carismas excepcionais, basta simplesmente ‘servir’ Jesus, escutá-lo, segui-lo sem esmorecer perante as dificuldades (…) O exemplo dos santos é, para nós, um encorajamento a seguir os mesmos passos, a experimentar a alegria de quem confia em Deus, porque a única e verdadeira causa de tristeza e de infelicidade – para o homem – é viver longe d’Ele. (…) A santidade exige um esforço constante, mas é possível a todos porque, mais do que obra do homem, é sobretudo dom de Deus, três vezes Santo (…) Quanto mais imitamos Jesus e lhe permanecemos unidos, tanto mais entramos no mistério da santidade divina. Descobrimos que somos amados por Ele de modo infinito e isto nos leva… a amar os irmãos. (…) Tudo passa, só Deus não muda. Diz um Salmo: ‘Desfalecem a minha carne e o meu coração; mas a rocha do meu coração é Deus, é Deus a minha sorte para sempre’. Todos os cristãos, chamados à santidade, são homens e mulheres que vivem profundamente ancorados nesta Rocha; têm os pés assentes na terra, mas o coração está já no Céu, morada definitiva dos amigos de Deus”.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ______________________________________________________________________________________
CONSTITUIÇÃO: Instituto Religioso Nova Jerusalém, 2ª Ed. Fortaleza, 2002.
DICIONÁRIO TEOLÓGICO DA VIDA CONSAGRADA. São Paulo: Paulus, 1994.
OLIVEIRA, José Lisboa Moreira de. Viver os votos em tempos de pós-modernidade. São Paulo: Loyola, 2001.
PEREGO, Giacomo. Novo Testamento e vida consagrada. São Paulo: Paulus, 2010.
<http://www.agencia.ecclesia.pt/cgi-bin/noticia.pl?id=38668> Acesso em 30/06/2011.
RETORNO ÀS ORIGENS
A palavra consagração vem da língua latina: a preposição cum = “com” e o adjetivo sacro = “sagrado”. A consagração, literalmente seria, portanto, aquilo que torna sagrado. Pode significar algo ou alguém que é santo/ separado. O conceito que se tem de consagração, em especial na linguagem do Antigo Testamento, é familiar ao termo kadosh (santo), ou seja, na linguagem bíblica, para se referir ao sagrado usa-se a palavra ‘santo’, portanto, vale dizer que uma coisa sagrada é uma coisa santa (perfeita). “Não podereis servir a Javé, porque é Deus santo, é Deus ciumento, que não perdoará vossas rebeldias nem vossos pecados!” (Js 24,19). Aqui fala-se num contexto de Aliança, onde os ciúmes de Deus são a forma de ele expressar sua santidade, ele não tolera a competição nem a concorrência na entrega do amor leal, exige serviço exclusivo e total; ao não responder o povo assim, seu ciúme se inflamará e “acabará convosco depois de ter-vos feito tanto bem” (v. 20). “Agora, porém, se deveras escutais minha voz e guardais minha aliança, vós sereis MINHA PROPRIEDADE PESSOAL entre todos os povos, porque é minha toda a terra, sereis para mim um reino de SACERDOTES e uma NAÇÃO SANTA” (Ex 19,6). Existe uma relação muito íntima entre DEUS e seu POVO, daí podemos entender a ideia de pertença e consagração. Deus mostra sua soberania, dá a liberdade a esse povo e exige deste o comportamento ético, condição irrenunciável para ser sempre um povo santo, daí nasce o decálogo (dez mandamentos): para uma necessidade de testemunho público. O nome de Deus é santo, o seu santuário é santo, a cidade é santa (por isso é chamada Terra Santa), o culto, que deveria ser acompanhado de rituais de purificação, o seu ESPÍRITO SANTO, Jesus mesmo é chamado de O Santo de Deus… A sua Lei é uma lei de santidade (Lv 17-26). Deus pede isso do homem: “Sede santos, porque eu, Javé, sou santo” (Lv 19,2) e ainda: “Vós, porém, vos santificareis e sereis santos, pois eu sou o Senhor vosso Deus” (Lv 20,7). A Lei de Santidade contempla, sem dúvida, uma relação muito estreita entre a santidade de Deus e a santidade do povo.
Para nós cristãos, ver a consagração no NT é chegar a uma denominação fundamental, pois ele concretiza as conseqüências imediatas entre Deus, o Espírito Santo e a sua Igreja. Nele, as realidades e mediações sacras mais importantes são transformadas pela vinda de Jesus, por exemplo: a lei, o templo, a morte (sua morte), o tempo, a palavra e os alimentos. Jesus é o cumprimento total das Escrituras e a radicalização, a maneira de superação de todos os dados revelados graças a sua “perfeição”. De agora em diante só existe uma realidade sagrada que é o CORPO DE JESUS CRISTO: “À Palavra se fez carne, e pôs sua morada entre nós, e vimos sua glória, glória que recebe do Pai como Filho único, cheio de graça e de verdade” (Jo 1,14). Com esta audaciosa afirmação, a Igreja crê, uma vez por todas que o Corpo de Jesus Cristo é o único lugar em que se encontra Deus: “Nele reside toda plenitude da divindade corporalmente” (Cl 2,9), e os cristãos compartilham essa plenitude. JESUS É O SANTO, hosios no grego. A Igreja se dirige a Deus chamando Jesus “teu Santo” = hagion, “servo-filho-servidor” (At 4,27-30), o “Santo de Deus ” (Mc 1,24; Jo 6,69). “Assim é o Sumo Sacerdote que nos convinha: santo, inocente, incontaminado, apartado dos pecadores, elevado acima dos céus” (Hb 7,26).
Na Bíblia, tudo se torna sacro ou consagrado quando recebe o toque do Espírito, por esse “toque”, tudo é transformado.
A Modernidade foi um movimento que surgiu mais ou menos no século XII. Ela está muito ligada ao surgimento das universidades e ao espírito crítico-científico desenvolvido pelas mesmas universidades. Daqui nasce o fenômeno da secularização. A religião não perde seu lugar, porém se torna intimista, “subordinada” aos critérios da política e da sociedade. Desenvolveu-se uma visão puramente humana e científica das coisas: o que antes era algo positivo, passa a ser um problema. Deus aqui não é esquecido, porém se dá pouco importância ao que é sagrado, o que é pior que o ateísmo (indiferença religiosa). Com a religiosidade diversificada, a busca pelas seitas e religiões orientais é concretizada pelo simples fato de que suas filosofias não exigem compromissos mais rigorosos, especialmente no lado moral. É dessa ideia que surge o que conhecemos por NOVA ERA, que busca formar uma super-religião, eliminando todas, inclusive o cristianismo. O êxodo rural, o esfacelamento da família, que dificulta a catequese cristã e a marginalização afastam as pessoas da comunidade cristã.
Nossa Constituição traz logo em seu terceiro parágrafo, onde nosso fundador define o Instituto, o contexto histórico-cultural de nosso tempo, situando as duas guerras mundiais, fomentadas por povos que se denominam ‘cristãos’. A Igreja da América Latina questionou a evangelização de cunho europeu e reivindicou uma evangelização concreta e específica para nossa realidade.
§4. “Desse desafio nasceu a Nova Jerusalém!”
§5. “Se bem que tem raízes cistercienses (beneditinas), A NOVA JERUSALÉM QUER SER UM INSTITUTO NOVO, PARA RESPONDER ÀS NECESSIDADES NOVAS NUM CONTINENTE NOVO”.
Na solenidade de Todos os Santos de 2006, o Santo Padre Bento XVI deixou-nos uma mensagem que poderá ajudar a compreender melhor a vocação à santidade em nossos dias. Inicia com o pensamento de São Bernardo: “Os nossos santos não precisam das nossas honras e nada recebem do nosso culto”. E continua:
“Para ser santo não é preciso realizar obras extraordinárias, nem possuir carismas excepcionais, basta simplesmente ‘servir’ Jesus, escutá-lo, segui-lo sem esmorecer perante as dificuldades (…) O exemplo dos santos é, para nós, um encorajamento a seguir os mesmos passos, a experimentar a alegria de quem confia em Deus, porque a única e verdadeira causa de tristeza e de infelicidade – para o homem – é viver longe d’Ele. (…) A santidade exige um esforço constante, mas é possível a todos porque, mais do que obra do homem, é sobretudo dom de Deus, três vezes Santo (…) Quanto mais imitamos Jesus e lhe permanecemos unidos, tanto mais entramos no mistério da santidade divina. Descobrimos que somos amados por Ele de modo infinito e isto nos leva… a amar os irmãos. (…) Tudo passa, só Deus não muda. Diz um Salmo: ‘Desfalecem a minha carne e o meu coração; mas a rocha do meu coração é Deus, é Deus a minha sorte para sempre’. Todos os cristãos, chamados à santidade, são homens e mulheres que vivem profundamente ancorados nesta Rocha; têm os pés assentes na terra, mas o coração está já no Céu, morada definitiva dos amigos de Deus”.
* Religioso do Instituto Religioso Nova Jerusalém.
fonte:irnovajerusalem
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ______________________________________________________________________________________
CONSTITUIÇÃO: Instituto Religioso Nova Jerusalém, 2ª Ed. Fortaleza, 2002.
DICIONÁRIO TEOLÓGICO DA VIDA CONSAGRADA. São Paulo: Paulus, 1994.
OLIVEIRA, José Lisboa Moreira de. Viver os votos em tempos de pós-modernidade. São Paulo: Loyola, 2001.
PEREGO, Giacomo. Novo Testamento e vida consagrada. São Paulo: Paulus, 2010.
<http://www.agencia.ecclesia.pt/cgi-bin/noticia.pl?id=38668> Acesso em 30/06/2011.
Assunto:
ascese,
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formações,
jovens,
Nova Jerusalém,
Vocacional NJ
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
Uma geração que ame a Bíblia
Entrevista concedida Pelo Pe. Caetano NJ (in memoriam) a Comunidade Católica Shalom.
A Bíblia é palavra de Deus, é definitiva, mensagem que não volta atrás. A palavra dos homens passa, a palavra de Deus permanece eternamente.
Nosso entrevistado é uma sumidade em Bíblia. Trata-se do Padre Caetano Minetti de Tillesse, Mestre em Bíblia. Chegou ao Brasil em 1968, instalando-se no Bairro Cristo Redentor, periferia de Fortaleza, onde desenvolve um belíssimo trabalho junto a essa comunidade carente. Aí fundou, em 1981, o Instituto Nova Jerusalém, e, em 1984, a Revista Bíblica Brasileira, que faz circular estudos científicos acerca da Bíblia, para aprofundar e atualizar sistematicamente o conhecimento crítico da Bíblia, e abrir um diálogo com o Brasil e o mundo.
Pe. Caetano, conte um pouco da sua história: vocação, entrada no mosteiro, decisão de vinda para o Brasil e estabelecimento em Fortaleza.
Pe. Caetano: Entrei no mosteiro cisterciense em Orval, na Bélgica, no dia 11 de fevereiro de 1946. Passei 22 anos no mosteiro, na vocação contemplativa, rigorosa. Uma vocação belíssima! Uma doação total e incondicional.
No mosteiro, comecei a me interessar pela Bíblia. Dediquei-me bastante aos estudos, então as autoridades mandaram-me a Roma, para licenciar em teologia - pela Universidade Gregoriana - e fazer Mestrado em Bíblia - pelo Pontifício Instituto Bíblico -. Depois retornei ao mosteiro e passei 11 anos ministrando aulas de Bíblia.
Então, mais ou menos na época do Concílio, senti no coração o desejo de fazer uma fundação diferente, mais próxima às necessidades e anseios do nosso tempo, do nosso século. Mas não na Europa, que tinha bastante fundações religiosas, ancoradas numa tradição de dois mil anos; acreditava que fosse melhor na América Latina. Assim, vim para o Brasil, e não me interessei pelo Rio de Janeiro, São Paulo ou mesmo Recife que já eram bem desenvolvidas.
Escolhi Fortaleza, mas não o bairro da Aldeota - bairro nobre da cidade -. Quando cheguei ao antigo Pirambu - hoje Cristo Redentor -, fiquei empolgado. Era o que eu procurava: um trabalho comunitário com o povo. Aquilo que eu vivia no mosteiro, queria viver no meio do povo mais simples, mais humilde, entre pescadores na beira da praia.
Cheguei ao Brasil em 1968 e desliguei-me do mosteiro. Fiquei totalmente à disposição da Arquidiocese de Fortaleza; simplesmente me enraizei aqui nesta comunidade pobre.
Como foi seu encontro com a R.C.C.?
Pe. Caetano: Em 1975, quando a Renovação Carismática chegou a Fortaleza, percebi que era a resposta àquilo que eu estava procurando. Aquela vida de entrega total que vivia no mosteiro agora podia ser vivida pelos leigos: homens, mulheres, pessoas casadas, crianças, adultos...
A Renovação é muito importante, mas para que não seja apenas "fogo de palha", precisa ter um alicerce mais profundo, e esse alicerce, para mim, é a Palavra de Deus. Não é qualquer pensamento, qualquer teologia ou ideologia, não é isso o que interessa; porque as idéias dos homens viram moda, mas depois passam. Enquanto a Palavra de Deus permanece eternamente.
Então, para a construção de um mundo novo, a Palavra de Deus é elemento imprescindível. E a Palavra de Deus deve ser estudada, com criticidade. Essa Palavra é questionada pelo mundo inteiro, e nós não temos o direito de apresentá-la apenas de uma maneira edulcorada ou simplificada para o grande povo. É preciso aprofundar-se, estudá-la de maneira crítica, enriquecer-se desta Palavra que tem uma mensagem para o mundo de hoje. Às vezes se acha que ela nada mais diz para o mundo de hoje; diz sim, mas é preciso estudá-la de maneira muito aprofundada.
Para quem deseja se aprofundar no conhecimento bíblico, por onde deve começar?
Pe. Caetano: A primeira coisa que se recomenda, é a leitura da Bíblia de ponta a ponta. É importante a leitura contínua, mesmo corrida, de ponta a ponta. Porque se escolhemos um trechinho que gostamos, achamos bonitinho, que toca o nosso coração, isso fica superficial, não leva ao conhecimento profundo. Na leitura de ponta a ponta nós sondamos a mensagem de Deus, o seu plano, aquilo que Ele está querendo dizer. Do início ao fim.
Fale um pouco sobre a fundação da Comunidade Nova Jerusalém.
Pe. Caetano: Nós precisamos ser profetas, mas uma pessoa só não pode erigir-se profeta, "uma andorinha só não faz verão". É preciso suscitar aqui no Brasil uma geração bíblica, um povo que leia, conheça, viva a Bíblia. E para isso uma pessoa só não basta, é indispensável uma congregação. Porque as pessoas morrem; a congregação, porém, continua estudando.
Assim, em 1981, foi fundado o Instituto Nova Jerusalém. Fiz questão de uma congregação mista. É essencial, porque a Bíblia é do povo de Deus, homem e mulher. E a maneira que a mulher lê a Bíblia é diferente da do homem. Por isso, é importante a leitura da Bíblia feita por ambos. É essencial a visão do homem e da mulher para a compreensão da Bíblia.
Além da Jerusalém mista consagrada, há a Jerusalém leiga. Não apenas os religiosos lêem a Bíblia, mas também os casados, com filhos... a Bíblia é também para eles. E a maneira de um leigo ler a Bíblia é diferente da maneira de um religioso. A Jerusalém leiga é um prolongamento essencial da Jerusalém religiosa.
Como e onde está hoje a Nova Jerusalém?
Pe. Caetano: A Jerusalém, além de Fortaleza, está em Belo Horizonte. A primeira razão dessa fundação em Belo Horizonte é o aprofundamento dos estudos. Aqui em Fortaleza só existe a filosofia e a teologia; é pouco, é preciso fazer pós-graduação, especialização, mestrado, especialmente em Bíblia. E o ensino dos jesuítas em Belo Horizonte é uma opção muito boa.
As mulheres têm os mesmos direitos dos homens, fazem os mesmos estudos de teologia e filosofia, da Bíblia. Devem ficar à mesma altura dos homens. Cada um tem a sua riqueza, a sua colaboração a dar.
Para a aprovação definitiva, a congregação precisa de 60 membros, dos quais a maior parte com votos perpétuos.
Qual a motivação para a fundação da Revista Bíblica Brasileira?
Pe. Caetano: Estuda-se Bíblia não apenas para fazer-se professores, mas para ver qual o plano de Deus sobre esta humanidade. A Revista Bíblica, posso dizer assim, aponta para onde vamos.
Ela tem um nível um pouco elevado, técnico, porque não temos o direito de ensinar ao brasileiro apenas o básico. O Brasil precisa ter condições de entrar no diálogo mundial acerca da Bíblia e da evangelização.
A Revista Bíblica Brasileira (RBB) é, portanto, o órgão de comunicação do Instituto Nova Jerusalém, que se esforça por expressar uma leitura da Bíblia atualizada, exigente, a par da exegese moderna mundial, numa compreensão profunda da mensagem bíblica, Antigo e Novo Testamento - e mesmo dos Apócrifos inter-testamentários -, que possa se tornar o alicerce e o trampolim para uma nova evangelização para o terceiro milênio. Penso que, a partir do nosso bairro humilde e pobre, e a partir do estudo e da meditação profunda, uma nova luz de evangelização possa irradiar para o nosso Brasil e mesmo para o mundo inteiro.
Quero ainda dizer que aqui na Jerusalém temos uma biblioteca com um acervo muito bom, de cerca de 15 mil livros sobre Bíblia. É uma das melhores do Brasil, mas é insuficiente; para a pesquisa científica tem de ir além. E estamos sempre em contato com a biblioteca de "Lovraine". Há, inclusive, um projeto de alguns especialistas de "Lovraine" virem ministrar alguns cursos; trata-se de uma colaboração entre Bélgica e Brasil. E fico muito feliz porque quero que o Brasil seja capaz de entrar em diálogo internacional.
Qual o trabalho social que se realiza com a ajuda de toda a Comunidade do Cristo Redentor?
Pe. Caetano: Nós trabalhamos não para o povo, mas com o povo. Não pensamos como "doutores da Lei", que sabem tudo. Caminhamos com o povo e devagar; não é muito fácil, mas temos tentado caminhar e despertar no povo o conhecimento da Bíblia.
Aqui, nessa comunidade tão humilde, muita gente possui uma Bíblia. Interessante que tem gente analfabeta que, entrando na Renovação Carismática, consegue ler a Bíblia, é uma graça especial. Nós procuramos, portanto, crescer.
Também tem o trabalho, que eu considero muito importante, com as crianças, adolescentes e jovens que entram nesse conhecimento de Deus e da Bíblia. Tem cinco creches aqui na comunidade, cada uma atende a cerca de 100 crianças.
Por que se convencionou setembro como o mês da Bíblia?
Pe. Caetano: Por causa de São Jerônimo, cuja festa é celebrada no dia 30 de setembro. Ele era eremita, trancava-se para estudar a Bíblia. Teve a audácia de se colocar na escola dos rabinos, em Belém, para aprender o hebraico. Antes dos estudos de Jerônimo se lia a Bíblia somente em grego ou em latim. Mas ele fez questão de ler a Bíblia na língua original, de voltar à verdade hebraica, como ele dizia. Razão pela qual ele só aceitava os livros que constavam na Bíblia hebraica. Os deuterocanônicos, portanto, ele não aceitava. Jerônimo foi importante, mas limitou um pouco. E a primeira Bíblia cristã foi a grega, que conta mais livros do que a hebraica. Também os evangelhos foram escritos originalmente em grego.
Que mensagem o senhor dedicaria aos nossos Internautas?
Pe. Caetano: A Bíblia é palavra de Deus, é definitiva, mensagem que não volta atrás. A palavra dos homens passa, a palavra de Deus permanece eternamente. E não apenas isso, é mais importante ainda. A Palavra de Deus é criativa, ela faz aquilo que diz. Quando lemos essa Palavra, ela transforma e a nós e ao mundo inteiro. E lendo a Bíblia, tornamo-nos servidores da Palavra e co-criadores com Deus, participando do poder criador da Palavra, participando da transformação do mundo. E quanto mais procuramos entender a Bíblia, sendo autênticos, mais participamos da transformação do mundo inteiro, pelo poder de Deus.
Pe. Caetano Minetti de Tillesse
Fundador da Comunidade Nova Jerusalém - Fortaleza
Fonte: Comunidade Católica Shalom
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quinta-feira, 25 de agosto de 2011
tríduo em preparação ao mês bíblico
Participe do tríduo em preparação ao mês bíblico nos dias 24, 25 e 26 de agosto. Na Matriz de Cristo Redentor após a Missa das 19h no Salão Paroquial e nas Capelas iniciando às 19h.
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terça-feira, 23 de agosto de 2011
Jubileu de Prata do superior o IRNJ
Na última sexta(12) celebramos o jubileu de prata de vida religiosa do superior do Instituto Religioso Nova Jerusalém e pároco de Cristo Redentor: Pe. Helton Maia, NJ.
A celebração aconteceu na Igreja Matriz de Cristo Redentor e contou com a presença de representações das várias comunidades de nossa paróquia. Concelebrando estavam: Pe. Lauro, NJ e Frei Santiago Sánchez, OAR; O Evangelho foi proclamado pelo Diácono Paulo Henrique, NJ e o serviço do altar pelo Diácono Marcelino, NJ, ambos da Paróquia Menino Jesus - Conjunto Industrial. Ao final da Celebração aconteceram as homenagens feitas por: Sr. Ernani(Comunidade de Goiabeiras, hoje, Área Pastoral da Barra do Ceará), Carmelita Freire(Capela Nossa Senhora Aparecida), Alcides e Lina(Vila Santo Antônio), Aparecida(Paróquia de São José - Vespasiano MG) e pela Nova Jerusalém, Ir Aila, NJ.
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segunda-feira, 18 de abril de 2011
A Nova Jerusalém
- Pe. Caetano M. de Tillesse
Fundador da Comunidade Nova Jerusalém
Fundador da Comunidade Nova Jerusalém
"Vi descer do céu, de junto de Deus, a Cidade santa, a Jerusalém nova, preparada como uma esposa que se enfeitou para o seu Esposo" (Ap 21,2).
A Nova Jerusalém "desce do céu", isto é, ela se manifesta aqui, agora, neste mundo. Não é uma visão par ao fim do mundo, mas é a visão da Igreja, hoje, neste mundo. Mas essa Nova Jerusalém é uma visão do futuro antecipada no presente deste mundo.
A Nova Jerusalém começou para mim no mosteiro cisterciense de Orval, na Bélgica, onde passei 22 anos. Já lá eu me apaixonei pela Bíblia e mandaram-me para Roma (Instituto Bíblico) onde conquistei o Mestrado em Bíblia em 1956. Passei 11 anos no mosteiro de Orval ensinando a Bíblia aos estudantes de teologia. Chegou então a época do Concílio e a parte jovem da comunidade cisterciense julgou que não devíamos guardar esse tesouro de contemplação enclausurado atrás de muralhas medievais e de 15 séculos de tradição monástica riquíssima (desde São Bento), mas como uma luz escondida debaixo do alqueire (cf. Mt 5,15). Por isso, pensamos vivenciar essa mesma experiência contemplativa (valiosa) no meio do povo mais pobre e marginalizado. Tentamos fazer isso em nosso humilde bairro Cristo Redentor (Fortaleza-CE).
Quando apareceu a Renovação Carismática (1975), pensei que aquilo que eu estava procurando estava acontecendo, pois a RCC quer experimentar a presença poderosa de Cristo ressuscitado hoje na Igreja reunida e no meio do povo mais humilde, principalmente. - A Nova Jerusalém brotou da RCC. Ela quer ser a manifestação de Cristo Ressuscitado no meio de sua Igreja hoje. Por esse motivo, ela não quer ser uma evangelização apenas sentimental e edulcorada. Ele quer a verdade segura da Palavra de Deus. Essa Palavra encontra-se na Bíblia. Novamente não basta uma leitura ingênua ou açucarada da Bíblia. Hoje muitos questionam a mensagem da Bíblia e da Igreja (depois de 500 anos de Evangelização e de colonização...). Uma mensagem edulcorada e ingênua não convence mais as elites intelectuais do nosso tempo, e se não convence mais a essas, as dúvidas e descrenças vão chegar depressa demais aos ouvidos e às mentes desprevenidas do nosso povo simples. O povo não está preparado para o assalto de incredulidade dos nossos tempos. Por isso, a nossa leitura da Bíblia - mesmo em ambientais populares - deve ser crítica, a par dos problemas e dos questionamentos modernos.
Eis a razão por que todos os membros da Jerusalém - homens e mulheres, pois a Nova Jerusalém é mista - estudam a filosofia e a teologia e continuam numa especialização bíblica, já que a Palavra de Deus é complexa e difícil. Ela é muito questionada pela ciência moderna. Os membros da Nova Jerusalém devem estar a par desses problemas e possuir uma formação segura e informada. A Jerusalém é mista porque a maneira feminina de ler a Bíblia é diferente da masculina e a Bíblia é essencialmente "esponsal": o papel da mulher é vital na resposta do povo de Deus à voz do Esposo. Por isso, a presença feminina é imprescindível na Nova Jerusalém. Da mesma maneira, a presença dos leigos é constitutiva na Nova Jerusalém; por isso, ao lado da Jerusalém masculina e feminina, consagrada pelos votos religiosos, há sempre uma Jerusalém leiga, que participa da consagração e busca bíblica e contemplativa da Nova Jerusalém religiosa, no meio de seus compromissos familiares.
A Nova Jerusalém não é apenas uma Congregação (ou Instituto) piedosa e dedicada ao estudo e à contemplação; a sua finalidade própria é evangelizar, isto é, deixar que a Palavra criadora de Deus possa desenvolver todas as suas energias no mundo desnorteado de hoje. Portanto, a Nova Jerusalém não atua apenas na pastoral de uma paróquia, mas quer atingir uma (arqui-)diocese inteira e mesmo a Igreja universal. Com essa finalidade, lançou a Revista Bíblica Brasileira, para aprofundar e atualizar sistematicamente o conhecimento crítico da Bíblia, e abrir um diálogo com as outras partes do Brasil, da América Latina, da Europa, do mundo cristão principal, mas não exclusivamente.
A Nova Jerusalém (interna, isto é, religiosa) conta atualmente com 31 membros, dos quais 5 sacerdotes (sem contar o fundador). Ela tem três fundações: a Casa-Mãe em Fortaleza, cujos membros estudam no ITEP arquidiocesano; duas casas (uma feminina e uma masculina: 6 membros no total) em Belo Horizonte-MG, cujos membros cursam a pós-graduação em teologia e Bíblia no ISI e em outros Institutos; e uma em Aracaju, que conta atualmente com dois membros, um sacerdote e um estudante professo.
O órgão de comunicação do Instituto Nova Jerusalém é a Revista Bíblica Brasileira (RBB) que, desde 1984 - três anos depois da fundação do Instituto - esforça-se por expressar uma leitura da Bíblia atualizada, exigente, a par da exegese moderna mundial, numa compreensão profunda da mensagem bíblica, Antigo e Novo Testamento - e mesmo dos Apócrifos inter-testamentário), que possa se tornar o alicerce e o trampolim para uma nova evangelização para o terceiro milênio. Pensamos que, a partir de nosso bairro humilde e pobre, e a partir de um estudo e de uma meditação profunda, uma nova luz de evangelização possa irradiar para o nosso Brasil e mesmo para o mundo inteiro (assinatura pela Caixa Postal 1577, 60001-970 Fortaleza-CE).
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Nova Jerusalém,
Pe. Caetano
Reflexões para Semana Santa.
Aíla L. Pinheiro de Andrade,nj*
A última secção do Apocalipse (21, 1—22, 5) faz um díptico com o relato da criação do Gênesis. Se a primeira palavra de Deus no Gn foi “faça-se” (Gn 1, 3), a primeira palavra emitida pelo que está sentado no trono é: “Faço tudo novo” (Ap 21, 5). O primeiro céu e a primeira terra desaparecem (v. 1), dando lugar a uma nova criação. O autor insiste em incutir a novidade, repetindo o termo até quatro vezes: vv. 1 (duas vezes), 2 e 5.
O mar, símbolo do caos, das forças adversas (Gn 1), já não existe (Ap 21,1). Deus, por meio de Cristo, destruiu o Adversário definitivamente (Ap 20, 1-10; cf. Is. 27, 1; 51, 9 s.; Sl 74, 13 ss.; Jó 26, 12 s.). Toda prova, toda tentação, acabou. Tudo é definitivo. Abatidos os inimigos, instaura-se o Reino de Deus, a nova humanidade na qual não há pecado, nem tropeço em provação alguma.
A nova Jerusalém não é feita de material inanimado, mas personifica a nova “cidade” dos que foram salvos. Com sua descida do céu, a totalidade do cosmos fica incorporada ao âmbito de Deus. Uma nova relação se instaura, se inaugura o novo noivado de Deus com o povo no gozo e na alegria (Os 2, 16-25; Jr 2, 1-3; Is 61, 10; 62, 4ss).
Essa noiva é a morada do Senhor. A nova Jerusalém, agora é a plenificação da presença de Deus no deserto, onde a nuvem era o símbolo da presença divina (sekinah), que baixava sobre a Tenda (Nm 9,15-23). Na nova Jerusalém o simbolismo se faz realidade: a morada não é a Tenda, mas o novo povo no qual Deus é uma presença plena.
A felicidade reina no novo povo (Ap 21, 4) porque foi eliminado todo tipo de dor, guerras, perseguições e morte (cf. também 22, 3-5). Aqui o livro chega a seu clímax: na luta contra o Adversário, a comunidade vencerá apesar das dificuldades de cada época. O Deus criador é também a meta última de todo ser criado. As fontes humanas de felicidade não saciam a sede; somente o encontro definitivo com Deus poderá satisfazer todo anseio humano.
Quando o Adversário sedutor for julgado (Ap 20, 10.15), quando tiver desaparecido o cenário no qual se desenvolveu a tragédia do pecado (20,11), quando já não existir o velho mundo no qual reina a dor e a morte, quando desaparecer tudo que representa o caos ou a esterilidade, então se cumprirá a visão da nova terra e do novo céu. Desaparecerá o mar, isto é, o caos e surgirá uma nova criação. A morada de Deus e a morada do ser humano serão a mesma, o céu e a terra se reconciliarão. Serão cumpridas, por fim, todas as profecias (cf. Is 65,17ss; 66, 22).
Se, em outro tempo, Israel experimentou a presença de Deus no deserto, aquilo foi apenas uma pálida imagem do que agora se anuncia: porque Deus habitará definitivamente entre todos os homens e, todos os povos serão um mesmo povo na presença de Deus (Ap 7,9), porque já não haverá pranto, nem morte, nem dor alguma.
O cristão sempre tem diante de si a utopia do novo céu e da nova terra. Não pode conformar-se com a injustiça, com nenhuma mentira, com qualquer dor gratuita. Buscará sempre o Reino de Deus.
O mundo novo não supõe a destruição apocalíptica deste, mas sim sua transformação progressiva. A vida nova já está enxertada neste mundo. O Reino de Deus já está dentro de nós. Assim como o deserto esconde em si a fertilidade que brota durante a chuva.
A Tenda do deserto foi sinal desta presença salvadora de Deus no meio de seu povo. Jesus Cristo, Palavra de Deus feita carne, é a realização suprema deste divino estar-com-os-homens: “E habitou (literalmente: “fincou sua Tenda”) entre nós” (Jo 1,14). Na Jerusalém do céu tudo está penetrado pelo que a Tenda significava: a perene presença de Deus. A bem-aventurança, dom gratuito de Deus, é a herança dos fiéis; e muito mais, é o cumprimento das promessas messiânicas feitas a Davi e que agora se estendem a todos os que participam da relação amorosa entre o Deus e o Cordeiro imolado/ressuscitado.
É isso que se expressa no pacto novo e definitivo firmado entre Deus e o ser humano. As bodas do Cordeiro são o seu sinal. Todos os povos agora fazem parte do povo de Deus em Jesus Cristo. Quando se efetivar plenamente esse ideal, a cidade será sagrada: não terá templo, porque Deus habitará no meio de seu povo (Ap 21,22).
* Aíla L. Pinheiro de Andrade é membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica. Leciona na Faculdade Católica de Fortaleza e em diversas outras faculdades de Teologia e centros de formação pastoral.
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