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domingo, 20 de novembro de 2011

Vencendo a tibieza



Josefa Alves Em alguns períodos da nossa vida, podemos detectar em nós alguns dos sintomas da tibieza: a frieza, a apatia, o desânimo, a insatisfação com Deus e conosco mesmo, a falta de estímulos para a oração diária, e até mesmo a falta de forças para decidir por algo ou desistir de alguma coisa. Se sofremos deste mal, há esperança para nós e o remédio é infalível: precisamos de um novo, belo e santo Pentecostes!É preciso, em primeiro lugar, tomar consciência da nossa condição de necessitados de uma renovação constante do Espírito Santo em nossa vida. O clamor constante e a abertura necessária à ação da graça farão de nós homens e mulheres fervorosos, capacitados pelo Espírito a transbordar no mundo o amor infinito de Deus.


Uma alma tíbia é uma alma morna, fraca, preguiçosa, desanimada e sem fervor. Esta “doença” traz sérias conseqüências, não só à nossa vida espiritual, mas a todas as realidades da nossa existência. Ela é conseqüência do pecado e desenvolve-se com facilidade nas almas que não são muito amigas das renúncias, sacrifícios e orações. Mas pouco adianta dizer, simplesmente, que é preciso aplicar à doença da tibieza o remédio do fervor. Seria como dizer a um doente que o remédio para ele é a saúde, ignorando que este é o seu problema: a falta de saúde.O único remédio contra a tibieza é o Espírito Santo, porque não existe verdadeiro fervor se não for inflamado pelo fogo do Espírito. O pecado endurece o coração e torna a pessoa indiferente a Deus. O Espírito nos aponta as raízes do pecado, fortalece-nos para a batalha, fecunda em nós os seus dons, purifica-nos, aquece e inflama o nosso ser.O Espírito Santo não se contenta em purificar-nos do pecado, mas prolonga a sua ação em nós até nos fazer “fervorosos no Espírito”. Comporta-se em nós como o fogo quando se apega à lenha úmida: primeiro a expurga, arrancando-lhe com barulho todas as impurezas, depois a inflama progressivamente, até que se torne toda incandescente e ela mesma se transforme em fogo. Ele, que faz novas todas as coisas, quer fazer fervorosos os homens tíbios.Concretamente, isto quer dizer que o Espírito Santo nos preserva de cair na tibieza, e se por acaso já nos encontrarmos neste estado, livra-nos dela. É impossível sair da tibieza sem uma intervenção decisiva do Espírito; se tentarmos fazê-lo mergulharemos ainda mais no pecado do orgulho.Olhemos para os apóstolos antes de Pentecostes: eram tíbios, incapazes de vigiar uma hora, discutiam sempre sobre quem seria o maior, ficavam espantados diante de qualquer ameaça. Depois que o Espírito veio sobre eles como línguas de fogo, tornaram-se a imagem viva do zelo, do fervor e da coragem. Fervorosos no pregar, no louvar a Deus, no fundar e organizar as Igrejas e, enfim, no sacrificar a vida por Cristo.Cirilo de Jerusalém escreve: “Os apóstolos receberam o fogo que queima os espinhos dos pecados e dá esplendor à alma”, e um escritor medieval escreve: “O Paráclito que, em línguas de fogo, desceu sobre os apóstolos e os discípulos, desce também sobre nós como fogo: para queimar e destruir a culpa, para purificar a natureza, para consolidar e aperfeiçoar a graça, para expulsar a preguiça de nossa tibieza e acender em nós o fervor do seu amor” (Hermann de Runa, Sermões Festivos, 31).

Muitos santos passaram por um longo período de tibieza, mas nenhum deles foi santo sem ter sido encharcado, queimado, transformado pelo poder e ação viva do Espírito Santo.
“Passei nesse mar tempestuoso quase vinte anos, ora caindo ora levantando. Mas levantava-me mal, pois tornava a cair. Tinha tão pouca perfeição que, por assim dizer, nenhuma conta fazia de pecados veniais. Se temia os mortais não era a ponto de me afastar dos perigos. Sei dizer que é uma das vidas mais penosas que se possa imaginar. Nem me alegrava em Deus, nem achava felicidade no mundo. Em meio aos contentamentos mundanos, a lembrança do que devia a Deus me atormentava. Quando estava com Deus, perturbavam-me as afeições do mundo” (Santa Teresa de Jesus, Vida, 8,2).
Quando invocamos o Espírito, clamamos: “Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis e acendei neles o fogo do vosso amor”, e ainda: “Aquece o que está frio”. Às vezes este clamor também é frio, porque fria é a nossa esperança. Em Ezequiel 37 temos outra imagem clara de um povo tíbio: “nossos ossos estão secos, nossa esperança está morta”, mas é a poderosa ação do Espírito Santo que faz estes ossos secos retornarem à vida.
Com o auxílio da graça, portanto, é possível sair da tibieza e passarmos da condição de frios e temerosos a fervorosos no Espírito!
 


terça-feira, 15 de novembro de 2011

O verdadeiro temor do Senhor


Feliz és tu se temes o Senhor e trilhas seus caminhos (Sl 127,1). Todas as vezes que na Escritura se fala do temor do Senhor, nunca se fala isoladamente, como se ele bastasse para a perfeição da nossa fé; mas vem sempre acompanhado de muitas outras virtudes que nos ajudam a compreender sua natureza e perfeição. Assim aprendemos desta palavra que disse Salomão no livro dos Provérbios: Se suplicares a inteligência e pedires em voz alta a prudência; se andares à sua procura como ao dinheiro, e te lançares no seu encalço como a um tesouro, então compreenderás o temor do Senhor (Pr 2,3-5).
Vemos assim quantos degraus são necessários subir para chegar ao temor do Senhor.
Em primeiro lugar, devemos suplicar a inteligência, pedir a prudência, procurá-la como ao dinheiro e nos lançar-mos ao seu encalço como a um tesouro. Então chegaremos a compreender o temor do Senhor.
Porque o temor, na opinião comum dos homens, tem outro sentido. É a perturbação que experimenta a fraqueza humana quando receia sofrer o que não quer que lhe aconteça. Este gênero de temor manifesta-se em nós pelo remorso do pecado, pela autoridade do mais poderoso ou a violência do mais forte, por alguma doença, pelo encontro com um animal feroz e pela ameaça de qualquer mal.
Esse temor, por conseguinte, não precisa ser ensinado, porque deriva espontaneamente de nossa fraqueza natural. Não aprendemos o que se temer, mas são as próprias coisas temíveis que nos incutem o terror.

Pelo contrário, sobre o temor de Deus, assim está escrito: Meus filhos, vinde agora e escutai-me: vou ensinar-vos o temor do Senhor Deus (Sl 33,12). Portanto, se o temor do Senhor é ensinado, deve-se aprender. Não nasce do nosso receio natural, mas do cumprimento dos mandamentos, das obras de uma vida pura e do conhecimento da verdade.
Para nós, todo o temor do Senhor está contido no amor, e a caridade perfeita expulsa o temor. O nosso amor a Deus leva-nos a seguir os seus conselhos, a cumprir os seus mandamentos e a confiar em suas promessas. Ouçamos o que diz a Escritura: E agora, Israel, o que é que o Senhor teu Deus te pede? Apenas que o temas e andes em seus caminhos; que ames e guardes os mandamentos do Senhor teu Deus, com todo o teu coração e com toda a tua alma, para que seja feliz (Dt 10,12-13).
Ora, os caminhos do Senhor são muitos, embora ele próprio seja o Caminho. Pois, ele chama-se a si mesmo caminho, e mostra a razão porque fala assim: Ninguém vai ao Pai senão por mim (Jo 14,6).
Devemos, portanto, examinar e avaliar muitos caminhos, para encontrarmos, por entre os ensinamentos de muitos, o único caminho certo, o único que nos conduz à vida eterna. Há caminhos na Lei, caminhos nos profetas, caminhos nos evangelhos e nos apóstolos, caminhos nas diversas obras dos mestres. Felizes os que andam por eles, movidos pelo temor do Senhor. 


por
Dos Tratados sobre os Salmos, de Santo Hilário, bispo, séc IV

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

As distrações na oração


O Papa João Paulo II, na carta "No início do novo milênio", convida toda a Igreja a tomar consciência de que não pode existir experiência de Deus, nem apostolado autêntico, nem amor fraterno, nem uma humanidade unida na construção da civilização do amor sem a oração.

Para que possamos fazer algo bom dentro e fora de nós, para que possamos produzir frutos abundantes na videira que é Cristo, precisamos entrar na plena comunhão com Ele. Repetimos várias vezes que a oração não é uma imposição, uma lei que nos obriga e escraviza, mas uma necessidade, uma urgência do coração que, sentindo-se solitário, exilado, incompreendido, busca ansiosamente um amigo que o possa amar e escutar. Na oração, Deus e o homem se amam reciprocamente, e um fica feliz de se contemplar no outro. Deus se contempla no homem criado à sua imagem e semelhança, e o homem se contempla em Deus, vendo a que é chamado a ser. 


A oração nos liberta de todos os nós, permite-nos levantar vôo. Santa Teresa de Ávila diz que somos chamados, como a pombinha branca, a alçar vôo para Deus, a entrar, vencendo todos os obstáculos, no castelo interior; e a porta pela qual entramos neste castelo é a oração.

Quando nos decidimos a rezar é porque nos encontramos em dificuldades e não sabemos como sair delas sozinhos, ou estamos tomados por uma alegria tão grande que não podemos fazer outra coisa senão gritar aos sete ventos: "Obrigado, Senhor". É algo maior do que nós. Os indiferentes, os insensíveis, os que se sentem bem com o "rastejar" e não desejam voar e ultrapassar o azul do céu para estar com o Senhor, nunca serão grandes orantes.

Mas, se rezar é tão bom - como dizem os místicos, os santos, os homens e mulheres que gastaram a vida toda procurando o rosto do Amado -, por que para nós há momentos em que a oração se faz difícil? Quais são as dificuldades maiores que encontramos na oração e como superá-las? Para vencer as dificuldades é necessário, antes de mais nada, ter muita confiança em Deus e pouca em nós. É ter consciência de que o Senhor nos dará a alegria de estar com Ele. Ele, como Pai amoroso, alegra-se quando nos vê lutando contra os inimigos que nos impedem de amá-lo e adorá-lo.

Não ter medo do fracasso

Todas as coisas têm as cores com que nós as pintamos; dependem do olhar com que as contemplamos. Para o pessimista, tudo vai mal; para o otimista, quase tudo vai bem.

Nossa oração é sempre atendida por Deus. Mesmo quando parece que não, Ele nos escuta e, na sua infinita sabedoria, nos dá o que necessitamos para o nosso crescimento. Somente Deus sabe do que realmente precisamos, e jamais Ele fecha o ouvido aos nossos gritos e súplicas. Quantas vezes na minha vida, quando era mais jovem, achei que Deus se "divertia", quase com um certo "sadismo", negando-me o que eu lhe pedia com tanta insistência. Mas, com o passar do tempo, sendo amadurecido ao sol do sofrimento e da experiência, fui vendo que Deus age de forma diferente. Fui me lembrando das palavras do profeta Isaías: "Os meus caminhos não são os vossos caminhos"; ou de Jesus: "O Pai sabe do que vocês necessitam antes que vocês peçam".

Ser confiante no amor misericordioso de Deus é deixar a Ele a liberdade de agir em nossa vida. Uma liberdade que sempre é colocada a serviço do ser humano. A oração, recorda-nos o Catecismo, é um verdadeiro combate. Uma vigilância perene sobre nós mesmos para não deixarmos entrar no coração os sentimentos que impedem o nosso encontro filial com Deus.

"Enfim, nosso combate deve enfrentar aquilo que sentimos como nossos fracassos na oração: desânimo diante de nossa aridez, tristeza por não ter dado tudo ao Senhor, por ter "muitos bens", decepção por não ser atendidos segundo nossa vontade própria, insulto ao nosso orgulho (o qual não aceita nossa indignidade de pecadores), alergia à gratuidade da oração etc. A conclusão é sempre a mesma: para que rezar? Para superar esses obstáculos é preciso lutar para ter a humildade, a confiança, a perseverança" (Cat, 2728).

Diante de tudo isto é bom nos convencermos de que a oração exige esforço nosso. Todo diálogo, para ser construtivo, vai exigindo uma constante atenção ao que acontece dentro de nós. Orar é abrir o nosso humano para que o divino possa entrar. Nunca devemos destruir a nossa sensibilidade, a nossa humanidade, mas torná-la mais atenta e aberta à ação de Deus em nós.

A alegria de ser distraído

Ensinaram-nos a considerar as distrações como a maior dificuldade da nossa vida de oração, a vê-las como "marimbondos" que não nos deixam tranqüilos quando queremos estar a sós com aquele que amamos, um empecilho no diálogo, no amor e na vida. Ser distraído foi considerado como algo desrespeitoso por aquilo que estamos fazendo. Diante desta dificuldade comum em todos nós devemos, sem dúvida, redimensionar a nossa atitude frente às distrações na vida de oração.

É preciso tomar consciência de que não somos distraídos somente na oração, mas em todas as atividades. Quantas vezes estamos diante da TV, mas o nosso coração, fantasia e pensamento estão tão distantes que perguntamos a alguém: "De que este programa está falando?" Ou quem de nós não se "pegou distraído" no trânsito a ponto de entrar numa rua errada? Ou ainda, durante o estudo leu cinco páginas e nada reteve na memória porque estava distraído... A distração, portanto, faz parte da nossa humanidade. Ninguém consegue pensar horas a fio no mesmo assunto e argumento. O ser humano é volúvel, tem necessidade de voar a tantos lugares, pensar em muitas coisas ao mesmo tempo... Como a abelha vai de flor em flor e, sem parar em nenhuma, vai sugando o néctar para sua vida pessoal e comunitária.

Ser distraído pode ser considerado não como um mal, mas como uma forte intuição do amor. Às vezes, pode ser o Espírito Santo querendo recordar-nos algo importante. Quem sabe você está rezando e, de imediato, vem-lhe o pensamento de que se esqueceu de desligar o gás da cozinha... Santa distração, que leva a correr e a evitar o perigo! Ou se rezando se "distrai" pensando nos pais, nos trabalhos, nas dificuldades, na falta de amor, nas pessoas... É o momento para você colocar tudo no coração de Deus e transformar essas distrações em motivações orantes para sua vida.

Diante das distrações, temos duas opções: assumir a nossa situação e o que nos vem à mente, ao coração, e fazer de tudo isso oração a ser apresentada a Deus, que é o melhor caminho; ou "chamar de volta" a nossa memória, a nossa atenção ao que estamos meditando. Este constante esforço é agradável ao Senhor porque manifesta o nosso amor e a nossa decisão de estarmos atentos à voz do Espírito.

É bom não perder tempo com as distrações, não se deixar atrair por elas, mas saber administrá-las com paciência e alegria. Quanto menos importância lhes damos, menos elas nos perseguem. Esta sabedoria é própria dos santos e de quem quer ser santo. "Pensar", nos adverte Teresa de Ávila, "o que estamos dizendo e a quem o estamos dizendo. Não seria justo falar com uma pessoa pensando em outras coisas ou com o olhar distante, como quem está cansado da presença do amigo".

Esta sabedoria está presente na pedagogia da Igreja que, no Catecismo, nos recorda: "A dificuldade comum de nossa oração é a distração. Esta pode referir-se às palavras e ao seu sentido, na oração vocal. Pode, porém, referir-se mais profundamente àquele a quem oramos, na oração vocal (litúrgica ou pessoal), na meditação e na oração mental. Perseguir obsessivamente as distrações seria cair em suas armadilhas, já que é suficiente o voltar ao nosso coração: uma distração nos revela aquilo a que estamos amarrados, e essa tomada de consciência humilde diante do Senhor deve despertar nosso amor preferencial por Ele, oferecendo-lhe resolutamente nosso coração, para que Ele o purifique. Aí se situa o combate: a escolha do senhor a quem servir. Positivamente, o combate contra nosso "eu" possessivo e dominador é a vigilância, a sobriedade do coração" (Cat, 2729-2730).

Quando percebemos que estamos "voando por aí", devemos aprender a voltar "ao assunto" e não permitir que alguém nos distraia do amor que devemos doar ao Amado. "Eu dormia, mas meu coração velava"...

Quem vive na tensão do amor será sempre como Maria, que "guardava todas estas coisas no seu coração e as meditava".

As distrações, as fantasias são as loucas da casa e por isso é preciso aprender a recolhê-las quando querem ir mais longe do que lhes é permitido. Superar as distrações é um exercício. Nunca chegaremos a evitá-las plenamente. Somente com uma graça especial do Senhor ou um êxtase ou uma visão, quando todas as nossas potências estão suspensas. Enquanto estivermos por aqui mesmo é preciso saber colocar, como nos diz o salmista, "freio e cabresto" às fantasias e distrações para que não nos levem longe do nosso Amado. É preciso dominar, administrar as distrações sem violência. O segredo é que, segundo a intensidade do amor que arde no nosso coração, estaremos mais atentos e fiéis ao amor do nosso Deus.

No passado eu ficava nervoso, inquieto, desanimado diante das distrações da minha vida. Hoje, quem desanima são as distrações, porque sabem que, quando batem à minha porta, na maioria das vezes, a encontram fechada.

É necessário vencer as distrações com a força do amor. Mas, se elas vierem, convém aproveitar o que trazem, reciclar tudo isso e transformar em oração. Mesmo quando as distrações trazem à memória o pecado, que é como lixo, é preciso lembrar que o lixo reciclado gera energia e força. Reciclar as distrações é fazê-las passar pelo coração de Deus. Que o texto do apóstolo Paulo possa nos servir como exemplo: "Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo, a espada? ... Mas, em tudo isso vencemos por aquele que nos amou" (Rm 8,35-37).

Nada pode nos separar do amor de Cristo. Nem as distrações, mágoas ou pensamentos inúteis; nada nem ninguém, porque Cristo é nosso e somos dele.

"...O intelecto não se fixa em nada, parece frenético, de tal maneira está descontrolado. Quem assim está verá, devido ao sofrimento que lhe sobrevem, que não é culpado por isso. Não deve afligir-se, porque é pior, nem se cansar em querer trazer à razão quem não a tem, isto é, seu próprio intelecto; reze como puder... De nossa parte, o que podemos fazer é procurar ficar a sós, e queira Deus que isso baste, como eu digo, para que entendamos com quem estamos e a resposta que o Senhor dá aos nossos pedidos. Pensais que Ele está calado? Mesmo que não o ouçamos, Ele nos fala ao coração quando de coração lhe pedimos" (Santa Teresa) 


Frei Patrício Sciadini, OCD 

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

São Rafael Arnáiz, Padroeiro da JMJ, e o silêncio

“Só no silêncio de tudo e de todos encontro a paz de teu amor”.

“Jesus necessita de almas que em silêncio Lhe escutem”.

“Deus…que no silêncio fala ao coração”.

“Solidão e silêncio são imprescindíveis para a oração”.

“Tantas verdades que só com o silêncio se chegam a compreender…”.

“O Trapista está enamorado de seu silêncio como o marinheiro está do mar”.

“Com o pensamento na Virgem, se refugia no silêncio”.

“No silêncio e na oração podemos fazer mais que com todo o ruído de palavras”.

“O melhor é o silêncio, amar e calar”.

“O silêncio que oferecemos é por Dios”.

“Na paz e no silêncio minha alma se abandonava a Deus”.

“Calemos a tudo para que no silêncio ouçamos os sussurros do Amor”.

domingo, 31 de julho de 2011

Santificação das relações de amizade - 1ª parte

A amizade pode ser um meio de santificação, ou um forte obstáculo para a perfeição, segundo sua natureza sobrenatural, ou natural e sensível. Falaremos, pois: 1º das amizades verdadeiras; 2º das falsas; 3º das amizades nas quais se mescla o sobrenatural com o sensível.

1º DAS VERDADEIRAS AMIZADES
Delas falaremos sobre sua natureza e suas vantagens.

595. A) Natureza. a) Por ser a amizade uma mútua comunicação entre duas pessoas, especifica-se de acordo com a diversidade de comunicações e dos bens que se comunicam. São Francisco de Sales explica muito bem [1]: “Quando mais excelentes sejam as que entrem nesta comunicação, mais perfeita será sua amizade Será certamente muito louvável se comunicas acerca das ciências; muito mais se comunicas acerca das virtudes, prudência, temperança, fortaleza e justiça; mas se esta mútua e recíproca comunicação foi sobre a caridade, devoção e perfeição cristã, Ó Bom Deus, que amizade tão preciosa! Será excelente porque vem de Deus, excelente porque vai a Deus, excelente porque seu vínculo é Deus, excelente porque durará para sempre em Deus. Que bom é amar na terra como se ama no céu, e aprender a amar mutuamente neste mundo como amaremos eternamente no outro!”

A amizade verdadeira em geral é, pois, um comércio íntimo entre duas almas para se fazerem bem mutuamente. Pode não passar de simplesmente decente, se os bens que os amigos se comunicam são de ordem natural. Mas a amizade sobrenatural é de uma ordem muito superior. É um comércio íntimo entre duas almas que se amam em Deus e por Deus, com propósito de se ajudarem reciprocamente a tornar mais perfeita a vida divina que possuem. A glória divina é seu fim último, e o adiantamento espiritual seu fim imediato, e Jesus o laço de união entre os dois amigos. A esse respeito, o Beato Etelredo pensava: “Ecce ego et tu et spero quod tertius inter nos Christus sit”, que Lacordaire traduzia desta maneira: “Não posso amar ninguém sem que minha alma se vá para trás do coração e Jesus esteja no meio de nós” [2].

596. b) De esta manera la amistad, lejos de ser apasionada, absorbente y exclusiva como la amistad sensible, se 'distingue por el sosiego, recato y mutua confianza Es un afecto sosegado, moderado, precisamente porque se funda en el amor de Dios, y participa de esta virtud; por esa misma razón es un afecto constante, que crece de continuo, al revés del amor apasionado, que tiende a flaquear. Va junta con un prudente recato: en vez de andar tras de las familiaridades y caricias, está siempre llena de respeto y de recato, porque no desea sino las comunicaciones espirituales. Este recato no estorba para la confianza; porque los amigos de esta clase se estiman bien mutuamente, y no ven en el otro sino un reflejo de las divinas perfecciones; tienen en el amigo muy grande confianza, que siempre es recíproca; lo cual trae consigo íntimas comunicaciones, porque el uno no desea sino comunicar en las dotes sobrenaturales del otro. Comunícanse, pues, los amigos sus pensamientos, propósitos y deseos de la perfección. Y, porque mutuamente quieren hacerse perfectos, no tienen reparo alguno en avisarse las faltas, y en ayudarse recíprocamente a corregirlas. La mutua confianza, que tiene el uno en el otro, impide que la amistad sea inquieta, absorbente y exclusiva; no llevamos a mal que nuestro amigo tenga otros amigos; aun nos gozamos de ello por su bien y por el del prójimo.

597. B) É evidente que uma tal amizade apresenta grandes vantagens. a) A Escritura a louva com freqüência: “O amigo fiel é uma defesa poderosa: quem o encontra, encontrou um tesouro... bálsamo de vida e de imortalidade é um fiel amigo: Amicus fidelis protectio fortis; qui autem invenit illum invenit thesaurum... Amicus fidelis, medicamentum viae et immortalitatis” [3]. Nosso Senhor nos deu o exemplo na amizade que teve com São João: este era conhecido como o discípulo “a quem Jesus amava, quem diligebat Jesus” [4]. São Paulo teve amigos, aos quais queria intensamente, sofre com sua ausência, e não tem mais doce consolo que voltar a estar com eles; assim se mostra desconsolado porque não encontrou Tito quando o esperava, “eo quod non invenerim Titum fratrem meum” [5] regozija-se quando o encontra: “Consolatus est nos Deus in adventu Titi... magis gavisi sumus super gaudio Titi” [6]. Pode-se perceber também o afeto que sentia por Timóteo, e quanto lhe consolava sua presença e lhe ajudava para o bem dos demais; por isso, lhe chama seu coadjutor, seu filho, seu querido filho, seu irmão: “Timotheus adjutor meus... filius meus... Timotheus frater.. Timotheo dilecto filio” [7].

A antiguidade cristã nos oferece também claros exemplos do mesmo gênero: uma das mais célebres amizades foi a de São Basílio e São Gregório Nazianzeno [8].

598. b) Destes exemplos se deduzem três razões que nos demonstram quão proveitosa é a amizade cristã, especialmente para o sacerdote dedicado ao ministério.

1) Um amigo é a defesa da própria virtude, protectio fortis. Temos necessidade de manifesta o mais fundo de nosso coração a um confidente íntimo; às vezes o diretor espiritual supre esta necessidade, mas nem sempre: sua amizade paternal é de outra classe que a amizade fraternal que desejamos. Necessitamos de um igual, com que possamos falar com ampla liberdade. Se não o tivéssemos, correríamos perigo de confiar segredos delicados a pessoas que não merecem nossa confiança, e as confidências que lhes fizermos, muitas vezes causariam problemas a eles e a nós.

2) É também um conselheiro íntimo, a cujo parece submetemos com prazer nossas dúvidas e dificuldades, e que nos ajuda a resolvê-las; um supervisor prudente e carinhoso que, vendo como nos portamos, e sabendo o que as pessoas dizem de nós, nos dirá a verdade, e impedirá que cometamos muitas imprudências.

3) É, por último, um consolador, que escutará com carinho o relato de nossas dores, e encontrará em seu coração as frases adequadas para suavizá-los e confortar-nos.

599. Já foi questionado sobre se convém fomentar essas amizades no seio das comunidades: se poderia temer que fossem um dano para o afeto que deve unir a todos os membros, e que seriam origem de invejas. Claro que se deve velar para que as tais amizades não prejudiquem a união comum, e sejam, não apenas sobrenaturais, mas contidas também dentro dos justos limites indicados pelos superiores. Mas, com estes requisitos, têm também suas vantagens, porque também os religiosos precisam de um conselheiro, de um consolador e de um supervisor que, ao mesmo tempo, seja um amigo. De todas as formas, nas comunidades, mais ainda que em outra parte, se deve fugir com muito cuidado de tudo o que parecer falsa amizade.

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1.Vida devota, P. IH, c. 19.
2.P. CHOCARNE, Vie de Lacordaire, t. II, c. XV.
3.Eccli, VI, 14-16.
4.S Joan., XIII, 23.
5.II Cor., XII, 13.
6.II Cor., VII, 6, 13.
7.Rom, XVI, 2 1; 1 Cor., IV, 17; II Cor., I, 1; I Tim., 1. 2.
8.S. FR. DE SALES, 1. cit., c. 19, trae otros muchos.


Fonte: Compêndio de Teologia Ascética e Mística, Adolph Tanquerey.