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quinta-feira, 24 de novembro de 2011

O que é um santo

Os homens e as mulheres que a Igreja Católica chama de “santos” são milhares, mais de vinte e sete mil, como afirma René Fullop Muller, em seu livro “Os Santos que abalaram o mundo”. São de todas as condições de vida, raças, cores, culturas, países, etc. Porém, uma coisa é comum a todos: eles foram heroicamente bons; basta analisar a vida deles. 
A santidade é basicamente a estreita união do homem com Deus; desse contato resulta a perfeição moral. Deus é santo por natureza; os homens são santos na medida em que se aproximam d’Ele. 


No céu todos os bem-aventurados estão intimamente unidos a Deus pela visão imediata d’Ele. Isso é chamado de “visão beatífica”. Todos os que estão no céu atingiram a santidade perfeita. Aqui na terra os homens são unidos a Deus por meio da graça divina. Essa graça é um dom, livremente dado por Ele, por meio do qual nos tornamos “participantes da natureza divina”, como São Pedro afirma (cf. 2 Pd 1, 4). Quanto mais graça um homem tem, tanto mais semelhante a Deus se torna. 
Um santo canonizado foi alguém que na terra praticou a bondade heróica em todas as suas ações. Um homem ou uma mulher não é canonizado por ter uma só virtude. Não é suficiente que ele não tenha faltas salientes. Mesmo uma pequena fraqueza é uma grande falta num santo. Um santo tem um controle perfeito de todas as virtudes. O santo não faz da sua vida espetáculo. Começa pelas virtudes sólidas, comuns da vida cristã, e depois as desenvolve até um grau extraordinário. São Vicente de Paulo costumava dizer que “um cristão não deveria fazer coisas extraordinárias, mas sim fazer extraordinariamente bem as coisas ordinárias”. 
Os seres humanos chegam à santidade travando uma árdua batalha com eles mesmos, com a carne e com o demônio. Partem do triste estado da nossa fraqueza comum, porém, antes de morrerem, atingem a santidade pela graça de Deus. E isso é possível a todos os batizados. Muitos santos não foram tão santos antes de se colocarem nesse caminho. Santo Agostinho assombrou o mundo pela sua “Confissão”, obra que fala como ele fora na sua mocidade, um moço desajuizado que viveu as suas farras na África e na Europa até se converter. Era amasiado e tinha um filho (Adeodato) antes de se converter aos 33 anos. 
Um santo vence a fraqueza. Por isso, a Igreja Católica não hesita em examinar no processo de beatificação minuciosamente tudo o que um santo fez. Santo Tomás de Aquino nasceu aristocrata e se tornou professor numa universidade. A sua característica era a simplicidade e a humildade em investigar a verdade como um dos mais profundos intelectuais de todos os tempos. Era santo. Em cada santo encontramos uma singularidade. 
Os santos não foram pessoas raras e especiais que viveram numa só terra ou numa só época particular. Pertencem a todas as épocas e a todas as nacionalidades. São Policarpo, natural da Ásia Menor, viveu no século II; já São Pio X foi um italiano e um Papa do século XX. E os quatro homens que são chamados os Padres do Ocidente, a saber: Santo Agostinho, São Jerônimo, Santo Ambrósio e São Gregório Magno, eram respectivamente da África do Norte, da antiga Iugoslávia e da Itália, e viveram entre os séculos quarto e sexto. Santa Francisca Cabrini era uma freira italiana que fundou hospitais em Nova York e em Chicago. Houve mártires em Nagassaki, no Japão, e padres na Rússia, que foram declarados santos pela Igreja Católica. 
O que talvez seja mais surpreendente é a enorme variedade de personalidades entre esses santos. Eram reis e rainhas; sapateiros e agricultores; sacerdotes, bispos, freiras; soldados; juristas; professores; donas-de-casa e mulheres profissionais, que se elevaram às alturas da santidade. Nenhuma classe tem o monopólio da santidade, embora talvez bispos e religiosos, por força da sua profissão, tenham mais freqüentemente chegado à santidade. 




por Felipe Aquino

domingo, 20 de novembro de 2011

Vencendo a tibieza



Josefa Alves Em alguns períodos da nossa vida, podemos detectar em nós alguns dos sintomas da tibieza: a frieza, a apatia, o desânimo, a insatisfação com Deus e conosco mesmo, a falta de estímulos para a oração diária, e até mesmo a falta de forças para decidir por algo ou desistir de alguma coisa. Se sofremos deste mal, há esperança para nós e o remédio é infalível: precisamos de um novo, belo e santo Pentecostes!É preciso, em primeiro lugar, tomar consciência da nossa condição de necessitados de uma renovação constante do Espírito Santo em nossa vida. O clamor constante e a abertura necessária à ação da graça farão de nós homens e mulheres fervorosos, capacitados pelo Espírito a transbordar no mundo o amor infinito de Deus.


Uma alma tíbia é uma alma morna, fraca, preguiçosa, desanimada e sem fervor. Esta “doença” traz sérias conseqüências, não só à nossa vida espiritual, mas a todas as realidades da nossa existência. Ela é conseqüência do pecado e desenvolve-se com facilidade nas almas que não são muito amigas das renúncias, sacrifícios e orações. Mas pouco adianta dizer, simplesmente, que é preciso aplicar à doença da tibieza o remédio do fervor. Seria como dizer a um doente que o remédio para ele é a saúde, ignorando que este é o seu problema: a falta de saúde.O único remédio contra a tibieza é o Espírito Santo, porque não existe verdadeiro fervor se não for inflamado pelo fogo do Espírito. O pecado endurece o coração e torna a pessoa indiferente a Deus. O Espírito nos aponta as raízes do pecado, fortalece-nos para a batalha, fecunda em nós os seus dons, purifica-nos, aquece e inflama o nosso ser.O Espírito Santo não se contenta em purificar-nos do pecado, mas prolonga a sua ação em nós até nos fazer “fervorosos no Espírito”. Comporta-se em nós como o fogo quando se apega à lenha úmida: primeiro a expurga, arrancando-lhe com barulho todas as impurezas, depois a inflama progressivamente, até que se torne toda incandescente e ela mesma se transforme em fogo. Ele, que faz novas todas as coisas, quer fazer fervorosos os homens tíbios.Concretamente, isto quer dizer que o Espírito Santo nos preserva de cair na tibieza, e se por acaso já nos encontrarmos neste estado, livra-nos dela. É impossível sair da tibieza sem uma intervenção decisiva do Espírito; se tentarmos fazê-lo mergulharemos ainda mais no pecado do orgulho.Olhemos para os apóstolos antes de Pentecostes: eram tíbios, incapazes de vigiar uma hora, discutiam sempre sobre quem seria o maior, ficavam espantados diante de qualquer ameaça. Depois que o Espírito veio sobre eles como línguas de fogo, tornaram-se a imagem viva do zelo, do fervor e da coragem. Fervorosos no pregar, no louvar a Deus, no fundar e organizar as Igrejas e, enfim, no sacrificar a vida por Cristo.Cirilo de Jerusalém escreve: “Os apóstolos receberam o fogo que queima os espinhos dos pecados e dá esplendor à alma”, e um escritor medieval escreve: “O Paráclito que, em línguas de fogo, desceu sobre os apóstolos e os discípulos, desce também sobre nós como fogo: para queimar e destruir a culpa, para purificar a natureza, para consolidar e aperfeiçoar a graça, para expulsar a preguiça de nossa tibieza e acender em nós o fervor do seu amor” (Hermann de Runa, Sermões Festivos, 31).

Muitos santos passaram por um longo período de tibieza, mas nenhum deles foi santo sem ter sido encharcado, queimado, transformado pelo poder e ação viva do Espírito Santo.
“Passei nesse mar tempestuoso quase vinte anos, ora caindo ora levantando. Mas levantava-me mal, pois tornava a cair. Tinha tão pouca perfeição que, por assim dizer, nenhuma conta fazia de pecados veniais. Se temia os mortais não era a ponto de me afastar dos perigos. Sei dizer que é uma das vidas mais penosas que se possa imaginar. Nem me alegrava em Deus, nem achava felicidade no mundo. Em meio aos contentamentos mundanos, a lembrança do que devia a Deus me atormentava. Quando estava com Deus, perturbavam-me as afeições do mundo” (Santa Teresa de Jesus, Vida, 8,2).
Quando invocamos o Espírito, clamamos: “Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis e acendei neles o fogo do vosso amor”, e ainda: “Aquece o que está frio”. Às vezes este clamor também é frio, porque fria é a nossa esperança. Em Ezequiel 37 temos outra imagem clara de um povo tíbio: “nossos ossos estão secos, nossa esperança está morta”, mas é a poderosa ação do Espírito Santo que faz estes ossos secos retornarem à vida.
Com o auxílio da graça, portanto, é possível sair da tibieza e passarmos da condição de frios e temerosos a fervorosos no Espírito!
 


terça-feira, 15 de novembro de 2011

O verdadeiro temor do Senhor


Feliz és tu se temes o Senhor e trilhas seus caminhos (Sl 127,1). Todas as vezes que na Escritura se fala do temor do Senhor, nunca se fala isoladamente, como se ele bastasse para a perfeição da nossa fé; mas vem sempre acompanhado de muitas outras virtudes que nos ajudam a compreender sua natureza e perfeição. Assim aprendemos desta palavra que disse Salomão no livro dos Provérbios: Se suplicares a inteligência e pedires em voz alta a prudência; se andares à sua procura como ao dinheiro, e te lançares no seu encalço como a um tesouro, então compreenderás o temor do Senhor (Pr 2,3-5).
Vemos assim quantos degraus são necessários subir para chegar ao temor do Senhor.
Em primeiro lugar, devemos suplicar a inteligência, pedir a prudência, procurá-la como ao dinheiro e nos lançar-mos ao seu encalço como a um tesouro. Então chegaremos a compreender o temor do Senhor.
Porque o temor, na opinião comum dos homens, tem outro sentido. É a perturbação que experimenta a fraqueza humana quando receia sofrer o que não quer que lhe aconteça. Este gênero de temor manifesta-se em nós pelo remorso do pecado, pela autoridade do mais poderoso ou a violência do mais forte, por alguma doença, pelo encontro com um animal feroz e pela ameaça de qualquer mal.
Esse temor, por conseguinte, não precisa ser ensinado, porque deriva espontaneamente de nossa fraqueza natural. Não aprendemos o que se temer, mas são as próprias coisas temíveis que nos incutem o terror.

Pelo contrário, sobre o temor de Deus, assim está escrito: Meus filhos, vinde agora e escutai-me: vou ensinar-vos o temor do Senhor Deus (Sl 33,12). Portanto, se o temor do Senhor é ensinado, deve-se aprender. Não nasce do nosso receio natural, mas do cumprimento dos mandamentos, das obras de uma vida pura e do conhecimento da verdade.
Para nós, todo o temor do Senhor está contido no amor, e a caridade perfeita expulsa o temor. O nosso amor a Deus leva-nos a seguir os seus conselhos, a cumprir os seus mandamentos e a confiar em suas promessas. Ouçamos o que diz a Escritura: E agora, Israel, o que é que o Senhor teu Deus te pede? Apenas que o temas e andes em seus caminhos; que ames e guardes os mandamentos do Senhor teu Deus, com todo o teu coração e com toda a tua alma, para que seja feliz (Dt 10,12-13).
Ora, os caminhos do Senhor são muitos, embora ele próprio seja o Caminho. Pois, ele chama-se a si mesmo caminho, e mostra a razão porque fala assim: Ninguém vai ao Pai senão por mim (Jo 14,6).
Devemos, portanto, examinar e avaliar muitos caminhos, para encontrarmos, por entre os ensinamentos de muitos, o único caminho certo, o único que nos conduz à vida eterna. Há caminhos na Lei, caminhos nos profetas, caminhos nos evangelhos e nos apóstolos, caminhos nas diversas obras dos mestres. Felizes os que andam por eles, movidos pelo temor do Senhor. 


por
Dos Tratados sobre os Salmos, de Santo Hilário, bispo, séc IV

domingo, 13 de novembro de 2011

O Esposo de nossas Almas


Acabo de rezar pela milionésima vez seu poema “Formosura”. É inevitável lembrar-me do que dizia Pe. Caetano, lá pela década de 70: a graça especial do Novo Pentecostes na Igreja abriu para o leigo comum as portas da oração mística. Na época em que ele pregou sobre isso, lembro-me que fiquei apavorada, por que, para mim, oração mística significava estigmas, sofrimento, doença, humilhação e muito sangue derramado. Depois, aos poucos, fui aprendendo que tratava-se do que hoje chamamos “oração profunda” e, em honra a você, “oração aos moldes de Teresa”. Hoje, mais de vinte e cinco depois da palestra, a gente vai vendo que você, Teresa, tinha razão: pela vida de oração, pela oração profunda, pela oração que é vida, que é conversa contínua de amizade com Deus, a gente vê que Ele, de fato, é a
... formosura que excede toda formosura. A gente vê que não há ninguém no mundo que seja tão “formoso” quanto Deus. Sabe, Teresa, esta palavra hoje está meio esvaziada de sentido, mas, rezando, a gente percebe o que você quis dizer: não há ninguém tão belo, tão verdadeiro, tão pronto para perdoar, tão acolhedor, tão livre, tão feliz, tão aberto, tão sem preconceitos, tão alegre, tão misericordioso, tão, tão ... formoso, quanto Deus. Ele, de fato,
... sem ferir, “faz” dor em toda criatura. Olha, Tê (posso chamá-la assim, não é?), o conceito de “dor” também está meio deturpado e grandemente fora de moda. O homem de hoje foge léguas de toda dor, seja física, psicológica, espiritual... Mas, quando a gente reza, como você recomenda tantas vezes, a gente entende que esta “dor espiritual” é a dor de desejar a Deus sempre mais, de desejar corresponder ao Seu amor, de contemplar sua “formosura” e desejar unir-se a Ele, de contemplar seu ser amor e desejar ser amor com Ele e, por outro lado, não ter como possuí-lo, pois Ele sempre está além, de não ter como unir-se a Ele até quando Ele queira, de desejar ver-nos livres de nossa fraqueza, mas esperar que Ele nos liberte e “sofrer” que Ele nos dê a vitória na luta constante contra nós mesmos para sermos, como Ele, sempre “sim”. Não é de espantar que Ele, a Formosura, “faça dor” em nós, criaturas, que, com “dor-prazer” O desejamos sempre mais desejar e possuir. Para ajudar, como você disse, Ele
... desfaz sem dor o amor das criaturas. Não precisa se preocupar. A gente entende que você está falando em amar qualquer pessoa, coisa, animal, plano, opinião, e, em especial a nós mesmos acima de Deus. A gente sabe o quanto você tinha amigos fiéis e bons e o quanto os amava, mas, como eram bons amigos, levavam-na a amar a Deus acima deles. É bonito ver como você amou a Deus acima de tudo e de todos, acima do que pensavam, do que queriam que você fizesse, do que opinavam sobre seus mosteiros, suas fundações. Você, Teresa, de fato, compreendeu sua missão e amou a Deus acima de tudo e de todos, acima de você mesma, acima dos muitos amigos que você tinha. Seu amor às criaturas era relativo. O absoluto era o amor a Deus. Com certeza, era por causa do
... laço que assim junta duas coisas desiguais. Claro! Com certeza foi a ação do Espírito Santo. É nítido, na sua história, como você se abriu à ação Dele sem reservas e, assim, levando você a amar a Deus acima de tudo e de todos, inclusive e especialmente você mesma, Ele juntou duas coisas desiguais como você e Deus. Sabe, Tê, como você mesmo ensina, isso só é possível pela oração, pela vida de oração. Acho que, daí do céu, você consegue ver muito bem como é difícil a gente rezar, recolher-se, refletir, meditar, hoje em dia. Precisa rezar muito por nós, Tê. Porque, veja bem: sem uma oração que seja amizade sincera com Deus, o Espírito Santo, o Laço, não tem como juntar duas coisas tão desiguais como Deus e nós. Acaba o espírito do mundo, do amor às coisas, ao dinheiro, ao trabalho, a nós mesmos, atraindo e laçando (no mau sentido) a gente, prendendo a gente a si mesmo e, assim, fazendo com que a gente fique cada vez mais longe de Deus. Sem rezar, Tê, não dá, você sabe. E, como você mesma ensina, não há nada que Deus queira mais do que nos ter junto a Ele, e o caminho é a oração. Sei bem que é por isso que você pede que o Espírito Santo que
...não desate o que ata. Por favor, querida Teresa, continua, aí no céu, a fazer esta oração. Pede muito ao Espírito que não desate o que atou com o Novo Pentecostes, com o nosso Batismo no Espírito, com a nossa primeira experiência com Deus, com os nossos compromissos e votos. Precisamos muito, muito mesmo, da sua oração. Não é fácil “manter acesa a chama” no mundo de hoje, diante de tantos apelos e desafios, diante de tantas investidas do inimigo. E, olha, como você sabe, sem oração, não há como manter acesa nenhuma chama de amor a Deus, nem mesmo uma pequenininha. É ilusão, como você mesmo ensina, achar que podemos passar “só um diazinho” sem rezar, sem fazer nossa Lectio Divina, pura ilusão. Para retomar a vida de oração, como você mesma testemunha, é uma batalha intensa. Deixar é fácil, mas voltar, eh, eh! Dá para entender porque você pede ao Espírito que não desate o que ata, é que
... atando, Ele dá força a ter por bem todos os males. Porque, sabe, Teresa, só com a força do Espírito e a chama viva do amor acesa pela oração constante é que a gente vai conseguir ver como vale a pena lutar por Deus, lutar pela radicalidade do Evangelho, lutar pela paz, sofrer perdas por causa de Jesus e da vontade do Pai. Assim, com a ajuda do Espírito que nos ilumina pela oração, a gente vai ver que não é um mal perder o conforto, a vida-boa, o prestígio, a juventude, a beleza, até a saúde por amor a Deus e ao seu Reino. Isso que as pessoas –e, quando está sem rezar, até a gente mesmo- chama de “males” se tornam, claramente, grande bem quando, pela oração, passamos a ver as coisas com os olhos de Deus. Por isso, pede para nós, Tê, o que você pediu para você mesma:
... junta aquela que não é à plenitude acabada. Pede a Deus que a gente viva unido, mas cada vez mais unido, mesmo, a Ele, sendo um com Ele na perfeição do amor, que só vive pela oração. Pela tua intercessão, ensina a gente que este nosso Esposo,
... sem acabar, acaba. Sem ter que amar, ama. Isto é, faz a gente entender que este nosso Amado vai burilando, moldando, esculpindo, acabando em nós sua obra de amor, bem aos pouquinhos, do jeito que a gente agüenta. Ele, que não tem nenhuma obrigação de amar a gente, mesmo assim, ama, pois que Ele só sabe amar e amar com amor gratuito, que é o único amor. Assim, como você bem disse, Ele
... engrandece nosso nada. Isso, Teresa! Você tem razão! Esta Formosura que excede toda formosura vai-nos atraindo, atraindo, atraindo, conquistando, amando, ligando, juntando, desejando, com muita eficácia, nos levar à plenitude do amor, à união consigo. Assim, Ele, que é o Tudo, nos eleva, engrandece nosso nada, fazendo-nos genuinamente felizes, acabando em nós sua obra de amor. Mas tudo isso, querida Teresa, você sabe, é fruto da oração, fruto daquele diálogo de amigo que nos torna semelhantes a quem amamos pela força do Amor desse nosso Amado. Teresa, ensina-nos, por favor, a rezar.
 

por Emmir Nogueira, Co-Fundadora da Comunidade Shalom * 

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Não te perturbes!


Quer conhecer um roteiro infalível para seu dia a dia? Leia com atenção:Nada te perturbe, nada te espante, tudo passa! Só Deus não muda. A paciência, por fim, tudo alcança. Quem a Deus tem, nada lhe falta, pois só Deus basta.Escrito há 500 anos, essa poesia de Santa Teresa de Jesus continua a ensinar o essencial: Só Deus basta! Mas, o que isso significa concretamente?


Vivemos sobressaltados, preocupados. Inquietos, passamos o dia tentando resolver mil coisas. Ansiosos, não conseguimos dormir bem. Preocupados, acabamos por meter os pés pelas mãos no desejo de evitar que aconteça o que nós consideramos “o pior”. Estressados, acabamos por nos irritar contra tudo e todos. Gritamos no trânsito, gritamos em casa, desmoronamos de cansaço.O problema está, entre outras coisas, em achar que sabemos o que é o “melhor” e “pior” para nós. Uma vez estabelecido o que consideramos nos convir ou não, tomamos as rédeas para determinar o que consideramos “melhor”. Ocorre que tudo, mas tudo mesmo, passa e o que ontem nos parecia “o melhor”, hoje é, visivelmente, “o pior”.Fé em DeusA raiz da inquietação, estresse, preocupação e ansiedade que aos poucos nos matam, contudo, reside além do fato de tudo passar, reside na fé.Há a fé que acredita em Deus e reza, contrita, o “Creio em Deus Pai”. Acreditar desse jeito, afirma São Tiago, até os demônios crêem e tremem. Nós, até cremos, quanto a tremer...Há aquela “fé” que pede a Deus o que acha “necessário”, “imprescindível”, “melhor” e fica ressentida com Deus se ele não atende seu pedido por mais que peça através de todos os meios – diga-se de passagem, nem sempre lícitos. É a fé infantil, diria, até, “birrenta”.


Essa fé, “contrariada”, muda de igreja quando não é atendida, assim como criança birrenta põe cara feia e diz aos pais que não é mais filho deles.Há a fé madura, que crê no Evangelho e na Igreja e vive seus ensinamentos, custe o que custar. É a fé dos santos.Há a fé que confia em Deus e a ele se entrega inteiramente, tranquila, pois sabe que ele é Pai e sempre providencia o melhor para nós. E, para Deus, o melhor para nós é a santidade.É essa fé madura e inteiramente confiante no amor de Deus que não se perturba com nada. Sabe ser fiel a Deus e ao Evangelho na penúria e na fartura, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença.Essa fé madura e confiante que é amada por Deus, não se espanta com nada. Nada a escandaliza, ainda que seja grande tristeza. Seus olhos não estão aqui na terra, mas fixos no céu. Sabe que, aqui na terra, tudo passa, tudo muda. Sabe que tudo pode nos enganar e iludir. Sabe, sobretudo, que Só Deus é o mesmo sempre. Só Deus não muda. Só o amor de Deus é sempre o mesmo, pois ele é amor em ato. Essa fé não vive para a terra nem valoriza o que à terra pertence. Vive para o céu, usando as coisas da terra para alcançá-lo.Paciência de AutodomínioPor isso tem paciência. Não aquela paciência de autodomínio, nem aquela que rói as unhas e balança as pernas para controlar a impaciência interior. Trata-se, aqui, da paciência-esperança, a paciência-fé, a paciência-amor.É aquela paciência que sabe que Deus está no comando. Sabe que ele pode tudo e tudo realiza por amor. Está certa de que, no tempo de Deus – e não no seu! – ele mesmo resolverá da melhor forma de todas, sempre visando nossa santificação e a do mundo. Sabe que, ainda que tudo esteja negro, verá a vitória de Deus e que essa vitória nem sempre é tal qual pensamos.Fé, caridade, esperança, paciência, confiança. Quem a Deus tem, nada lhe falta. Corretíssimo. Mas, quem é mesmo que “tem Deus”. Todos. Porém, Santa Teresa fala aqui daquele que conhece Deus não por palavras e teorias, mas pela oração e pelo amor.


Em uma palavra, pelo relacionamento pessoal, relacionamento de amizade. Este, que ora com a Palavra, que tem a Deus como o centro de sua vida, que procura amá-lo em tudo, a este, nada lhe falta. Dele cuida o Pai muito melhor do que as aves do céu e os lírios dos campos, pois ele vale muito mais aos seus olhos.Nada te perturbe, homem de pouca fé! Nada te espante, mulher de pouca esperança! Tudo, mas tudo, mesmo, passa, exceto Deus. Fica, então, com o Único que é digno do teu amor e deixa-o cuidar de ti. Espera. Confia. Espera sempre, confia sempre. Quem tem a Deus, quem o conhece, quem confia nele, vive de forma diferente, vive de olho no céu e de coração no coração de Deus. Por isso, é tranquilo e feliz.Só Deus basta. Dedica-te a Ele. Deixa-te amar por ele. Ama-o. Nada, então, te perturbará.FirulasVivemos sobressaltados, preocupados. Estressados, acabamos por nos irritar contra tudo e todos. Gritamos no trânsito, gritamos em casa, desmoronamos de cansaço.O problema está, entre outras coisas, em achar que sabemos o que é o “melhor” e “pior”para nós.A raiz da inquietação, estresse, preocupação e ansiedade que aos poucos nos matam, contudo, reside além do fato de tudo passar, reside na fé.Há a fé que confia em Deus e a ele se entrega inteiramente, tranquila, pois sabe que ele é Pai e sempre providencia o melhor para nós. E, para Deus, o melhor para nós é a santidade.





por Emmir Nogueira, Co-Fundadora da Comunidade Shalom

Comunidade Católica Shalom

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Maria, mestra da oração (1ª parte)

Queremos voltar a contemplar Maria como mestra e modelo da nossa oração. O amor feminino, a delicadeza da mulher se abre à ternura de Deus e nos ensina novos caminhos para nos aproximar do Senhor. Maria não começou a rezar depois que foi visitada pelo anjo Gabriel e depois da Encarnação. A Igreja apresenta-nos Maria orante antes da aurora da plenitude dos tempos, antes que ela fosse escolhida como mãe de Jesus. 


Maria na sua casa de Nazaré 

Não é difícil reconstruir a vida da jovem Maria, filha de Ana e de Joaquim, que vivia num povoado da Galiléia chamado Nazaré. Uma vida de gente pobre, simples, que devia lutar de sol a sol para garantir o próprio sustento e cuidar dos afazeres diários de uma família: limpar a casa, buscar água na bica, socar o arroz no pilão, ir às casas vizinhas para manifestar a solidariedade nos momentos de sofrimento pela morte de alguém, alegrar-se pelo nascimento de um filho ou repartir o pão preparado no forno a lenha... Uma vida simples, mas cheia de amor. 

A família de Joaquim e Ana era conhecida e estimada pelo seu trabalho, honestidade e zelo pela Lei do Senhor. Não havia nada de especial. Sua rotina era marcada pela união, amor e compreensão. De manhã, ao meio-dia e ao anoitecer, imagino que a pequena família de Nazaré, deixando de lado os trabalhos, unia-se em oração. Não há dúvida de que Joaquim repetia os textos sagrados ouvidos na sinagoga e convidava a família a estar atenta aos sinais para reconhecer a vinda do Messias, anunciado pelos profetas. Maria prestava atenção a tudo e se colocava em oração. E sonhava com a vinda do Messias, suplicava a Deus que lhe fizesse contemplar a chegada daquele que devia salvar o povo de Javé. Estes desejos e esperança se fazem oração na vida de Maria. 

"A oração de Maria nos é revelada na aurora da plenitude dos tempos. Antes da Encarnação do Filho de Deus e antes da efusão do Espírito Santo, sua oração coopera de maneira única com o plano benevolente do Pai" (Cat 2617). Por isso Maria faz-se para nós mestra de oração. Como cada um de nós, ela fundamentou a sua oração na fé e no amor ao Senhor, que vem em socorro do seu povo. 

Uma característica da oração de todos os tempos é a esperança. Saber esperar o que ainda não possuímos. O Deus da esperança não leva em conta a nossa matemática; para Ele, mil anos são como um dia, e um dia como mil anos. Nós, homens e mulheres, somos cada vez mais triturados pela pressa, a pressa de tudo. Não sabemos mais esperar. 
No entanto, Deus é o Deus da esperança e suas promessas se realizam no decorrer do tempo, lenta mas inexoravelmente. É preciso carregar em nós esta certeza de que toda promessa vai se realizar, e passar esta teologia da esperança a todos os que vivem conosco para que seja transmitida aos que vierem depois. 
Maria é a janela da esperança aberta sobre o mundo. Quem tem esperança não pode deixar de rezar, de acreditar que o Deus da história vai mudar o curso das coisas. Todos nós esperamos e, alcançando o que esperamos, assumimos outro ideal, e outra esperança nos anima. A oração de Maria começa a se realizar quando ela se abre ao mistério da concepção, quando pronuncia o seu "sim". 
Quem reza não faz muitas perguntas a Deus, não duvida de sua ação. Sente, como Maria, medo e insegurança, tenta compreender, mas entrega-se plenamente nas mãos do Senhor. Por isso encontramos Maria plenamente dócil à ação do Espírito Santo que a conduz por caminhos para ela desconhecidos. Maria reza "na Anunciação para a concepção de Cristo, em Pentecostes para a formação da Igreja, Corpo de Cristo" (Cat 2617). 

O nosso fiat... Sim incondicional 

Há momentos em que dizer "sim" ao projeto de Deus é extremamente difícil, mas é o que Deus quer dos seus amados. A Deus não se pode dar resposta medíocre ou parcial. 

Contemplar o Fiat de Maria é descer ao íntimo de sua humanidade, de seu mistério. O mistério não se revela uma vez por todas, mas lentamente se abre os nossos olhos e Deus nos faz compreender o que irá acontecer. Por isso Maria conservava todas as coisas no seu coração, ia meditando-as para que tudo se fizesse realidade. Toda pessoa de fé caminha na noite, mas tem no coração a certeza que, um dia, o sol brilhará em todo o seu esplendor. Aprender na escola de Maria, mestra da oração, a dizer "sim" é deixar-se conduzir plenamente pela mão de Deus, sem saber aonde Ele nos conduzirá. O Fiat envolve toda a nossa inteligência e exige a resposta da fé. 

O nosso sim, à imitação de Maria, deve ser total, incondicional, mesmo quando não compreendemos, mesmo na revolta da nossa natureza; ou quando a cruz nos parece mais pesada; ou ao nosso redor as trevas se fazem mais espessas; quando o grito da dor rompe do nosso coração; quando nada parece ter sentido e nos sentimos sozinhos, sem apoio, é exatamente nesses momentos que devemos ter a coragem de dizer FIAT - faça-se! 

"Na fé de sua humilde serva, o dom de Deus encontra o acolhimento que esperava desde o começo dos tempos. Aquela que o Todo-poderoso tornou 'cheia de graça' responde pela oferenda de todo seu ser: 'eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo tua palavra'. Fiat, esta é a oração cristã: ser todo dele porque Ele é todo nosso" (Cat 2617). 

Contemplação de olhos abertos 

Ensinaram-nos que a contemplação acontece quando ficamos de olhos fechados, despreocupados de tudo o que pode acontecer ao nosso redor. Que o contemplativo é alguém meio alienado, que mergulha no seu próprio ser sem sentir mais o peso da vida e sem se angustiar pelas milhares de pessoas que, a cada dia, morrem de fome ou lutam para reconquistar a própria liberdade. 

Deram-nos a imagem do contemplativo como alguém meio estranho, distante de tudo, preocupado apenas com seus cânticos e rezas, mas pouco atento ao que acontece na vida de cada dia, afinal, "ser contemplativo é interceder pelos outros sem saber por que; é Deus quem vai saber como 'distribuir' as orações que recebe". Nada de mais aberrante e sem fundamentação! 

Maria, a intercessora, contemplativa, está toda atenta nas bodas de Caná; não foge para se retirar em oração, esconder-se aos olhos dos outros. Gosto de imaginar Maria de pé, entre a sala dos convidados e a cozinha, olhando tudo o que vai acontecendo. E ao perceber que os servidores não passam mais rapidamente para servir o vinho, ela não fica indiferente, mas se preocupa e tenta solucionar o problema. 

"Não têm mais vinho!" Estas palavras têm uma força toda especial na nossa vida orante. Não é suficiente suplicar, é preciso conhecer os sofrimentos dos irmãos pelos quais rezo. A oração nasce da realidade, da vida. Quanto mais estivermos no meio do povo, mais perceberemos suas necessidades. Portanto, a Igreja quer que os contemplativos e as contemplativas estejam informadas sobre o que acontece no mundo e na Igreja. Viver os problemas dos outros estando ao lado... Não se pode assumir o que não se conhece. 

Maria, nas bodas de Caná, nos faz compreender que a vida é sempre festa, alegria, aliança, matrimônio. Não se celebra uma festa sozinho, separado dos outros. Mas muitas vezes a festa é estragada pela falta de pequenas ou grande coisas. O maior pecado é o egoísmo, que nos impede de ver que vinho falta na grande festa da vida: o vinho da fé, do amor, da esperança. 

"O Evangelho nos revela como Maria ora e intercede na fé: em Caná a mãe de Jesus pede a seu filho pelas necessidades de um banquete de núpcias, sinal de outro Banquete, o das núpcias do Cordeiro que dá seu Corpo e Sangue a pedido da Igreja, sua Esposa. E é na hora da nova Aliança, ao pé da Cruz, que Maria é ouvida como a Mulher, a nova Eva, a verdadeira 'mãe dos vivos'" (Cat 2618). 


sábado, 5 de novembro de 2011

Cultive as boas amizades


Uma amizade só é verdadeira se baseada na fidelidade

Não preciso falar aqui da importânica de cultivar as boas amizades para ser feliz. Milan Kundera diz que “toda amizade é uma aliança contra a adversidade, aliança sem a qual o ser humano ficaria desarmado contra seus inimigos. Os amigos recentes custam a perceber essa aliança, não valorizam ainda o que está sendo contraído. São amizades não testadas pelo tempo, não se sabe se enfrentarão com solidez as tempestades ou se serão varridos numa chuva de verão.”


A verdadeira amizade nos socorre quando menos esperamos! Podemos esquecer aquele com quem rimos muito, mas nunca nos esqueceremos daqueles com quem choramos. Os corações que as tristezas unem permanecem unidos para sempre.
Na prosperidade, os verdadeiros amigos esperam ser chamados; na adversidade, apresentam-se espontaneamente. A fortuna faz amigos. A desgraça prova se eles existem de fato. É preciso saber fazer e cultivar amizades. Isso depende de cada um de nós; antes de tudo, do nosso desprendimento e fidelidade ao outro. Para conquistar um amigo é preciso criar um “deserto” dentro de si, aceitando que o outro venha ocupá-lo.
Acolher o amigo é, em primeiro lugar, ouvi-lo. Alguns morrem sem nunca ter encontrado alguém que lhes tenha prestado a homenagem de calar-se totalmente para ouvi-los. São poucos os que sabem ouvir, porque poucos estão vazios de si mesmos, e o seu "eu" faz muito barulho. Se você souber ouvir, muitos virão lhe fazer confidências.
Muitas pessoas se queixam da falta de amigos, mas poucos se preocupam em realizar em si as qualidades próprias para conquistar amizades e conservá-las.
Se você quiser ser agradável às pessoas, fale a elas daquilo que lhes interessa e não daquilo que interessa a você. A amizade é alimentada pelo diálogo; que é uma troca de ideias em busca da verdade; muito diferente da discussão, que é uma luta entre dois, na qual cada um defende a sua opinião.
A verdadeira amizade não pode ser alimentada pela discussão, somente pelo diálogo.
Em vez de demonstrar exaustivamente que o amigo está errado, ajude-o a descobrir a verdade por si mesmo; isso é muito mais nobre e pedagógico.
Se você quiser agir sobre seu amigo, de verdade, para que ele mude, comece por amá-lo sincera e desinteressadamente.
A amizade também exige que se corrija o amigo que erra; mas devemos censurar os amigos na intimidade; e elogiá-los em público. Nada é tão nocivo a uma amizade como a crítica ao amigo na frente de outras pessoas; isso humilha e destrói a confiança. Nunca desista de ajudar o amigo a vencer uma batalha; não há nem haverá alguém que tenha caído tão baixo que esteja fora do alcance do amor infinito de Deus e do nosso socorro.
Uma amizade só é verdadeira e duradoura se é baseada na fidelidade. Cuidado, pois para magoar alguém são necessários um inimigo e um amigo: o inimigo para caluniar e um “amigo” para transmitir a calúnia.
(Trecho extraído do livro “Para ser feliz”)


Felipe Aquino
felipeaquino@cancaonova.com
Prof. Felipe Aquino, casado, 5 filhos, doutor em Física pela UNESP. É membro do Conselho Diretor da Fundação João Paulo II. Participa de aprofundamentos no país e no exterior, escreveu mais de 60 livros e apresenta dois programas semanais na TV Canção Nova: "Escola da Fé" e "Trocando Idéias". Saiba mais em Blog do Professor Felipe Site do autor: www.cleofas.com.br

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Oração, intimidade com o céu

- “Pelo Coração nos unimos a Deus”

“Para mim, a oração é um impulso do coração, é um simples olhar lançado ao céu, um grito de reconhecimento e amor no meio da provação ou no meio da alegria.”

(Santa Teresa do Menino Jesus)

Nosso coração é uma casa, onde existem cômodos, janelas, porta... e abrimos a quem queremos receber bem. É também o centro da nossa vida, centro escondido, sustenta toda vida em nós. É inatingível pela razão – se o cérebro parar de funcionar o coração continua a bater e não vice e versa. Apenas o próprio Senhor o conhece e pode sondá-lo. É o lugar da decisão, lugar da verdade, onde escolhemos a vida ou a morte. Nosso coração é o lugar do encontro com Deus, lugar da aliança. É o Espírito que impulsiona esse encontro íntimo, entre Criador e criatura. (CIC § 2563)

Quem ora em nós é o coração, impulsionado pelo Espírito Santo, pela sede da presença do Criador, do Amor. Se o coração está longe de Deus, toda expressão da oração é vã, pois ela passa a ser mecânica. Quando dirigida totalmente pela razão e não pela autenticidade do sentimento e do momento no qual estamos passando, a oração foge da sua essência que é buscar sem cessar, a presença de Deus.

“Ao vê-la chorar assim, como também todos os judeus que a acompanhavam, Jesus ficou intensamente comovido em espírito. E, sob o impulso de profunda emoção, perguntou: Onde o pusestes?. Responderam-lhe: Senhor, vinde ver. Jesus pôs-se a chorar.”(Jo 11,33-34)

Jesus expressa sua autenticidade, impulsionado de profunda emoção. Expressa todo seu amor por Lázaro e por aquelas pessoas que estavam feridas pela dor da perda de quem amavam. Ele chorou... é o impulso que o leva a dar os próximos passos para clamar a intervenção do Pai naquele momento.

“Tomado novamente de profunda emoção, Jesus foi ao sepulcro. Era uma gruta, coberta por uma pedra...” (Jo 11,38ss)

Se o nosso coração é o ponto de encontro com o próprio Senhor, é dele que deve brotar a oração. Dado este primeiro passo, tudo é conseqüência e conseguimos assim, expressar o sentimento de profundo amor ou busca diante Daquele que tudo pode realizar, por amor a nós.

Lançar os olhos para o céu, deve ser para nós uma busca da Face Sagrada do Senhor. É um simples impulso do corpo, que anseia ver aquilo que o coração já está gritando: a presença e intervenção do Amado Senhor, em quem nossa alma confia e suspira de saudades.

“Levantando Jesus os olhos para o alto, disse: Pai, rendo-te graças, porque me ouviste...”

(Jo 11,41ss)

Quando, a partir do coração, o sentimento tomou conta de todo nosso corpo, a expressão vai além de um olhar para o céu, mas quer ser ouvida, quer anunciar esse sentimento de busca de todo ser. É o momento onde reconhecemos o quanto precisamos de Deus e que toda maravilha se realiza por Ele em nossa vida.

Temos como prova desse grito de reconhecimento diante de Deus, a oração de Maria: “Minha alma glorifica o Senhor e meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador...” (Lc 1,46ss)

Maria, exulta em Deus... em seu grande momento de alegria, mas também em tempos de provação. E é pela provação que conseguimos mostrar o que realmente somos diante de Deus. Por menor que ela seja, os sentimentos do nosso coração, expressos nas nossas atitudes ou não, revelam quem realmente somos e assim, provamos para Deus – diante destes sentimentos e atitudes – todo amor que temos por Ele. Provamos também, até que ponto renunciamos a nossa vontade para que a Vontade de Deus aconteça, uma vez que Ele sabe (como Pai) o que é melhora a cada um de nós. E esta prova de amor dada por nós ao Pai é expressa através de nossa vida e de nossa oração autêntica. O Magnificat é a mais perfeita oração da alegria. Maria, cheia do Espírito Santo e cheia de Jesus em seu seio, exultou de alegria perante de Deus, reconhecendo-se pequena diante da grandiosidade de Deus. Seu coração estava cheio do mais puro sentimento e o Senhor se alegrou em Maria, no seu coração e na sua vida, fazendo dela sua morada, um Templo Santo, morada Do Salvador.

Que alegria é saber se colocar diante do Rei e preparar na morada do nosso coração, no nosso castelo interior uma habitação para Deus. Preparar o trono do Rei de nossas vidas e nos encontrar com esse Rei todos os dias para refletirmos diante de Sua sabedoria e para pedir aquilo que realmente nos é necessário, sem orgulho ou cobiça. Pedir somente aquilo que nos leva a amar mais. Quando pedimos algo a Deus das alturas de nosso orgulho e da nossa própria vontade, pedimos apenas o que nos convém e acabamos anulando a essência de Deus que é Amor e que só quer nosso bem. Não podemos continuar a colocar condições para amar a Deus. Ou seja, só amamos a Deus quando Ele nos dá o que queremos. Assim acabamos por nos tornar meros mercenários.

Quando nos dirigimos a Deus justificando nossos erros ou nos achando melhores ou maiores do que os outros, estamos mais nos distanciando de Deus do que criando vínculo de aliança eterna com O Amado. Seremos assim, eternos fariseus (cf.Lc 18,9-14). Ao contrário, irmãos amados e irmãs amadas, rasguemo-nos diante do Senhor, como quem somente quer receber amor e amar em plenitude, pois a oração é uma graça que só pode ser acolhida por Deus, diante de um coração humilde e pobre.

“É preciso se lembrar de Deus com mais freqüência do que se respira.”

(São Gregório Nazianzeno)

A verdade é que nunca sabemos o que realmente precisamos, sempre queremos mais e mais e mais... Sem Deus, o homem é oco e tenta ser preenchido por tantas outras coisas inúteis e vazias que fazem da nossa vida uma jornada de busca e procura de satisfação pessoal em bens materiais e apegos terrestres.

Que possamos buscar sempre a Deus e assim, viver na Sua presença, e tudo nos será dado de acordo com nossas necessidades. (cf. Mt 6,33)

Paz oracional para teu coração!

Fonte: Comunidade Beatitudes

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

A excelência da Castidade

Ninguém melhor que o Espírito Santo saberá apreciar o valor da castidade. Ora, Ele diz: "Tudo o que se estima não pode ser comparado com uma alma continente" (Eclo 26, 20), isto é, todas as riquezas da terra, todas as honras, todas as dignidades, não lhe são comparáveis. Santo Efrém chama a castidade de "a vida do espírito"; São Pedro Damião, "a rainha das virtudes"; e São Cipriano diz que, por meio dela, se alcançam os triunfos mais esplêndidos. Quem supera o vício contrário à castidade, facilmente triunfará de todos os mais; quem, pelo contrário, se deixa dominar pela impureza, facilmente cairá em muitos outro vícios e far-se-á réu de ódio, injustiça, sacrilégio, etc. A castidade faz do homem um anjo. "Ó castidade, exclama Santo Efrém (De cast.), tu fazes o homem semelhante aos anjos".
 Essa comparação é muito acertada, pois os anjos vivem isentos de todos os deleites carnais; eles são puros por natureza; as almas castas, por virtude. "Pelo mérito desta virtude, diz Cassiano (De Coen. Int., 1. 6, c. 6), assemelham-se os homens aos anjos"; e São Bernardo (De mor. et off., ep., c. 3): "O homem casto difere do anjo não em razão da virtude, mas da bem-aventurança; se a castidade do anjo é mais ditosa, a do homem é mais intrépida". "A castidade torna o homem semelhante ao próprio Deus, que é um puro espírito", afirma São Basílio (De ver. virg.).

O Verbo Eterno, vindo a este mundo, escolheu para Sua Mãe uma Virgem, para pai adotivo um virgem, para precursor um virgem, e a São João Evangelista amou com predileção porque era virgem, e, por isso, confiou-lhe Sua santa Mãe, da mesma forma como entrega ao sacerdote, por causa de sua castidade, a santa Igreja e Sua própria Pessoa.

Com toda a razão, pois, exclama o grande doutor da Igreja, Santo Atanásio (De virg.): 'Ó santa pureza, és o templo do Espírito Santo, a vida dos Anjos e a coroa dosSantos!".

Grande, portanto, é a excelência da castidade; mas também terrível é a guerra que a carne nos declara para no-la roubar. Nossa carne é a arma mais poderosa que possui o demônio para nos escravizar; é, por isso, coisa muito rara sair-se ileso ou mesmo vencedor deste combate. Santo Agostinho diz (Serm. 293): "O combate pela castidade é o mais renhido de todos: ele repete-se cotidianamente, e a vitória é rara". "Quantos infelizes que passaram anos na solidão, exclama São Lourenço Justiniano, em orações, jejuns e mortificações, não se deixaram levar, finalmente, pela concupiscência da carne, abandonaram a vida devota da solidão e perderam, com a castidade, o próprio Deus!"

Por isso, todos os que desejam conservar a virtude da castidade devem ter suma cautela: "É impossível que te conserves casto, diz São Carlos Borromeu, se não vigiares continuamente sobre ti mesmo, pois negligência traz consigo mui facilmente a perda da castidade"

por
Do tratado da Castidade, São Maria de Ligório

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Falando em estudo bíblico...

1. FONTES PRIMÁRIAS E SECUNDÁRIAS PARA ESTUDOS BÍBLICOS AVANÇADOS
- PAPIROS BODMER: é um grupo de vinte e dois papiros descoberto no Egito em 1952. Eles foram assim nomeados depois que Martin Bodmer (1899 - 1971, bibliófilo, estudioso e colecionador) os comprou. Os papiros contêm segmentos dos dois Testamentos e de algumas literaturas cristãs antigas. O mais antigo, P66, data de 200 d.C. Os papiros pertencem a Biblioteca Bodmeriana, em Cologny, na Suíça. Em 2007 a Biblioteca do Vaticano adquiriu dois dos papiros, P74 e P75.
* Manuscritos gregos:
- CODEX SINAITICUM (א, 01): é uma antiga cópia da Bíblia grega (AT e NT). Pertence ao texto padrão alexandrino, foi escrito no século IV d.C em letras maiúsculas em pergaminho. Foi descoberto no século XIX no Monastério grego do Monte Sinai. Embora partes do Códice estejam espalhadas em quatro bibliotecas ao redor do mundo, a maioria do manuscrito hoje está na Biblioteca Britânica.
- CODEX VATICANUM (B, 03): é um dos manuscritos mais antigos da Bíblia grega (AT e NT). O Códice é assim nomeado porque pertence à Biblioteca do Vaticano onde foi colocado desde o século XV d.C. Está escrito em grego, com letras maiúsculas, e foi paleograficamente datado do século IV dC. Os estudiosos o consideram um dos melhores textos gregos do Novo Testamento.
- CODEX (CÓDICE) BEZAE (D, 05): é um códice do Novo Testamentodatado do século V escrito em maiúsculas. Contém grande parte dos quatro Evangelhos e Atos, além de um pequeno fragmento da 3Jo, medindo 26 x 21.5 cm, com o texto grego na face esquerda e o texto latino à direita. Faz parte do texto padrão Ocidental. Durante os motins das Guerras de Religião no século XVI, quando análise textual se tornou urgente para os protestantes da Reforma, o manuscrito foi levado de Lyon em 1562 e entregue ao estudioso protestante Theodore Beza, o amigo e sucessor de Calvino que o doou para a Universidade de Cambridge, Inglaterra e ainda hoje permanece na Biblioteca daquela universidade.
** Manuscritos hebraicos
- CODEX ALLEPO EM FACSIMILE: O Códice de Aleppo (Keter Aram Tzova) é um manuscrito medieval da Bíblia hebraica. O códice foi escrito no século X d.C. Alguns testemunhos mostram que o Códice de Aleppo foi consultado por estudiosos judeus ao longo da Idade Média, e estudos modernos mostraram que ele pode ser a representação mais precisa dos princípios Masoréticos de qualquer manuscrito existente. Durante a Primeira Cruzada, a sinagoga foi saqueada e o códice foi transferido de Jerusalém para o Egito, pois os judeus pagaram um alto preço por seu resgate. Foi preservado na sinagoga do Cairo onde foi consultado por Maimonides. Em 1375, um de descendentes de Maimônides o trouxe para Aleppo, Síria, de onde vem sua atual designação. Em 1958, quando foi contrabandeado para Israel e hoje se encontra na Universidade Hebraica de Jerusalém.
- CODEX DE LENINGRADO: O Códice de Leningrad (ou Códice Leningradensis) é o manuscrito completo mais antigo da TANAK com texto masorético. É datado de 1008 de acordo com seu colofão. Atualmente seu texto está reproduzido na Bíblia Hebraica (1937) e Bíblia Hebraica Stuttgartensia (1977). Também é útil para os estudiosos como fonte primária para a recuperação das partes perdidas do Códice Aleppo. O Códice de Leningrado é assim nomeado porque foi pertence à Biblioteca Nacional da Rússia em São Petersburgo desde 1863. Depois da Revolução Russa os estudiosos o nomearam de Códice de Leningrado. A pedido da Biblioteca o termo Leningrado foi mantido até mesmo depois que o nome original da cidade foi restabelecido depois da dissolução da União Soviética.
*** Textos aramaicos (ou versões críticas para línguas modernas)
- TARGUM NEOPHYTI (BIBLINGUE): paráfrase da Bíblia hebraica em aramaico que data entre os séculos III e VIII d.C. Foi descoberto em 1949 por Alejandro Diez Macho na Biblioteca dos Neófitos em Roma.  As paráfrases do Targum Neophyti são significativamente diferentes daquelas do Targum Onkelos. Elas são consideravelmente mais expansivas. O idioma do Targum Neophyti é convencionalmente conhecido como aramaico palestino em vez do aramaico babilônico do Targum Onkelos.
- TARGUM ONQELOS (DO PENTATEUCO) EM INGLÊS E EM FRANCÊS*: é o targum oriental (babilônico) oficial da Torah.  Alguns identificam essa tradução como trabalho de Áquila de Sinope, daí o nome Onqelos.  O tradutor é único em evitar qualquer tipo de antropomorfismo para Deus. Antigamente o Targum Onqelos era recitado de cor como tradução de versículo por versículo enquanto se proclamava a Torah na sinagoga.
- TARGUM JONATHAN EM INGLÊS*: É uma paráfrase dos Nebiîm em aramaico. Seu início se deu em Jerusalém, mas foi terminado na Babilônia no início do século II d.C. O Talmud atribui a Jonatan ben Uzziel a tradução dos Nebiîm para o aramaico.
- Textos em outros idiomas antigos ou versões críticas de textos antigos
- ANTIGO TESTAMENTO EM SIRÍACO (Peshitta): é a versão padrão da Bíblia no idioma siríaco. O nome “Peshitta” significa "versão simples". O Siríaco é um dialeto, ou grupo de dialetos, do Aramaico oriental. O AT e o NT da Peshitta são dois trabalhos de tradução completamente distintos. O AT Peshitta é a parte mais antiga da literatura siríaca de todos os tempos, com a provável origem no século II d.C traduzido diretamente do hebraico anterior ao texto massorético. O NT foi traduzido do grego no século III.
- ARQUEOLOGIA DA ALTA MESOPOTÂMIA (EDIÇÃO CRÍTICA):útil para os estudos da Torah e dos Livros Históricos.
- RAS SHAMRA: A atual Ras Shamra chamava-se Ugarit. Foi uma antiga e cosmopolita cidade portuária, situada na costa mediterrânea do norte da Síria. O apogeu da cidade ocorreu de cerca de 1450 a.C até 1200 a.C. Em 1928 um camponês abriu acidentalmente uma tumba antiga enquanto arava o campo. As escavações descobriram um palácio real de 90 quartos e duas bibliotecas que continham textos diplomáticos, legais, econômicos, administrativos, acadêmicos, literários e religiosos. No topo do morro onde a cidade foi construída estavam dois templos principais: um dedicado a Baal e um a Dagon.
- BÍBLIA KITTEL: O hebraísta Rudolf Kittel publicou na Alemanha, duas edições de Bíblia Hebraica, sendo a primeira em 1906 e a segunda com pequenas revisões em 1913. Mais tarde, quando se tornaram disponíveis os textos massoréticos do Códice de Leningrado, Kittel  produzir uma terceira edição da Bíblia Hebraica, que teve um texto hebraico um pouco diferente e algumas notas de rodapé revisadas. Foi a primeira vez que uma Bíblia levou em conta o texto do Códice de Leningrado.
- BÍBLIA STUTTGARTENSIA: totalmente baseada no Códice de Leningrado publicada pela Sociedade Bíblica Alemã em Stuttgart. É uma revisão da terceira edição da Bíblia Hebraica editada por Rudolf Kittel. As notas de rodapé foram totalmente revisadas. Essas notas foram sendo acrescentadas aos poucos desde 1968.
- SEPTUAGINTA: A tradução do Antigo Testamento para o grego, acrescida de mais sete livros originariamente escritos em grego. É muito importante para os estudos bíblicos porque em vários casos, os pergaminhos do mar morto estão de acordo com a LXX e diferentes do texto massorético. Os mais antigos códices da LXX (Vaticanus e Sinaiticus) datam do século IV AD. A edição mais importante é a romana ou sistina, que reproduz exclusivamente o Codex Vaticanus. Foi publicada pelo Cardeal Caraffa, com a ajuda dos vários peritos, em 1586, autorizado pelo Papa Sisto V, para ajudar nas revisões em preparação da Vulgata Latina, requisitada pelo Concílio de Trento.
- BÍBLIA POLIGLOTA COMPLUTENSE: é a edição oficial da LXX, baseada em manuscritos atualmente perdidos, é considerada bastante próxima aos mais antigos manuscritos.
- VETUS LATINA: é um nome coletivo dado aos textos bíblicos em latim que foi traduzido antes da Vulgata de São Jerônimo e se tornou a Bíblia padrão para os cristãos ocidentais de língua latina. A expressão Vetus Latina significa Bíblia Latina Velha (em oposição à Vulgata) e não que tenha sido escrita em latim antigo, ao contrário  trata-se de latim recente.
2. FERRAMENTAS PARA ESTUDOS AVANÇADOS:
- SINOPSIS DOS 4 EVANGELHOS, CONCORDÂNCIA, APARATO CRÍTICO.
3. LITERATURA RABÍNICA
Talmud e Midrash
Ir Aila Luzia, NJ (Doutora em Bíblia, Filósofa, Teóloga, professora da Faculdade Católica de Fortaleza e superiora do ramo feminino do Instituto Religioso Nova Jerusalém)

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Viver a Santidade em tempos de pós-modernidade

Ir. Narcélio Lima, NJ*


RETORNO ÀS ORIGENS
A palavra consagração vem da língua latina: a preposição cum =com” e o adjetivo sacro =sagrado”. A consagração, literalmente seria, portanto, aquilo que torna sagrado. Pode significar algo ou alguém que é santo/ separado. O conceito que se tem de consagração, em especial na linguagem do Antigo Testamento, é familiar ao termo kadosh (santo), ou seja, na linguagem bíblica, para se referir ao sagrado usa-se a palavra ‘santo’, portanto, vale dizer que uma coisa sagrada é uma coisa santa (perfeita). “Não podereis servir a Javé, porque é Deus santo, é Deus ciumento, que não perdoará vossas rebeldias nem vossos pecados!” (Js 24,19). Aqui fala-se num contexto de Aliança, onde os ciúmes de Deus são a forma de ele expressar sua santidade, ele não tolera a competição nem a concorrência na entrega do amor leal, exige serviço exclusivo e total; ao não responder o povo assim, seu ciúme se inflamará e “acabará convosco depois de ter-vos feito tanto bem” (v. 20). “Agora, porém, se deveras escutais minha voz e guardais minha aliança, vós sereis MINHA PROPRIEDADE PESSOAL entre todos os povos, porque é minha toda a terra, sereis para mim um reino de SACERDOTES e uma NAÇÃO SANTA” (Ex 19,6). Existe uma relação muito íntima entre DEUS e seu POVO, daí podemos entender a ideia de pertença e consagração. Deus mostra sua soberania, dá a liberdade a esse povo e exige deste o comportamento ético, condição irrenunciável para ser sempre um povo santo, daí nasce o decálogo (dez mandamentos): para uma necessidade de testemunho público. O nome de Deus é santo, o seu santuário é santo, a cidade é santa (por isso é chamada Terra Santa), o culto, que deveria ser acompanhado de rituais de purificação, o seu ESPÍRITO SANTO, Jesus mesmo é chamado de O Santo de Deus… A sua Lei é uma lei de santidade (Lv 17-26). Deus pede isso do homem: “Sede santos, porque eu, Javé, sou santo” (Lv 19,2) e ainda: “Vós, porém, vos santificareis e sereis santos, pois eu sou o Senhor vosso Deus” (Lv 20,7). A Lei de Santidade contempla, sem dúvida, uma relação muito estreita entre a santidade de Deus e a santidade do povo.
Para nós cristãos, ver a consagração no NT é chegar a uma denominação fundamental, pois ele concretiza as conseqüências imediatas entre Deus, o Espírito Santo e a sua Igreja. Nele, as realidades e mediações sacras mais importantes são transformadas pela vinda de Jesus, por exemplo: a lei, o templo, a morte (sua morte), o tempo, a palavra e os alimentos. Jesus é o cumprimento total das Escrituras e a radicalização, a maneira de superação de todos os dados revelados graças a sua “perfeição”. De agora em diante só existe uma realidade sagrada que é o CORPO DE JESUS CRISTO: “À Palavra se fez carne, e pôs sua morada entre nós, e vimos sua glória, glória que recebe do Pai como Filho único, cheio de graça e de verdade” (Jo 1,14). Com esta audaciosa afirmação, a Igreja crê, uma vez por todas que o Corpo de Jesus Cristo é o único lugar em que se encontra Deus: “Nele reside toda plenitude da divindade corporalmente” (Cl 2,9), e os cristãos compartilham essa plenitude. JESUS É O SANTO, hosios no grego. A Igreja se dirige a Deus chamando Jesus “teu Santo” = hagion, “servo-filho-servidor” (At 4,27-30), o “Santo de Deus ” (Mc 1,24; Jo 6,69). “Assim é o Sumo Sacerdote que nos convinha: santo, inocente, incontaminado, apartado dos pecadores, elevado acima dos céus” (Hb 7,26).
Na Bíblia, tudo se torna sacro ou consagrado quando recebe o toque do Espírito, por esse “toque”, tudo é transformado.

O HOJE DE DEUS E O NOSSO HOJE
A Modernidade foi um movimento que surgiu mais ou menos no século XII. Ela está muito ligada ao surgimento das universidades e ao espírito crítico-científico desenvolvido pelas mesmas universidades. Daqui nasce o fenômeno da secularização. A religião não perde seu lugar, porém se torna intimista, “subordinada” aos critérios da política e da sociedade. Desenvolveu-se uma visão puramente humana e científica das coisas: o que antes era algo positivo, passa a ser um problema. Deus aqui não é esquecido, porém se dá pouco importância ao que é sagrado, o que é pior que o ateísmo (indiferença religiosa). Com a religiosidade diversificada, a busca pelas seitas e religiões orientais é concretizada pelo simples fato de que suas filosofias não exigem compromissos mais rigorosos, especialmente no lado moral. É dessa ideia que surge o que conhecemos por NOVA ERA, que busca formar uma super-religião, eliminando todas, inclusive o cristianismo. O êxodo rural, o esfacelamento da família, que dificulta a catequese cristã e a marginalização afastam as pessoas da comunidade cristã.
Nossa Constituição traz logo em seu terceiro parágrafo, onde nosso fundador define o Instituto, o contexto histórico-cultural de nosso tempo, situando as duas guerras mundiais, fomentadas por povos que se denominam ‘cristãos’. A Igreja da América Latina questionou a evangelização de cunho europeu e reivindicou uma evangelização concreta e específica para nossa realidade.
§4. “Desse desafio nasceu a Nova Jerusalém!”
§5. “Se bem que tem raízes cistercienses (beneditinas), A NOVA JERUSALÉM QUER SER UM INSTITUTO NOVO, PARA RESPONDER ÀS NECESSIDADES NOVAS NUM CONTINENTE NOVO”.
Na solenidade de Todos os Santos de 2006, o Santo Padre Bento XVI deixou-nos uma mensagem que poderá ajudar a compreender melhor a vocação à santidade em nossos dias. Inicia com o pensamento de São Bernardo: “Os nossos santos não precisam das nossas honras e nada recebem do nosso culto”. E continua:
Para ser santo não é preciso realizar obras extraordinárias, nem possuir carismas excepcionais, basta simplesmente ‘servir’ Jesus, escutá-lo, segui-lo sem esmorecer perante as dificuldades (…) O exemplo dos santos é, para nós, um encorajamento a seguir os mesmos passos, a experimentar a alegria de quem confia em Deus, porque a única e verdadeira causa de tristeza e de infelicidade – para o homem – é viver longe d’Ele. (…) A santidade exige um esforço constante, mas é possível a todos porque, mais do que obra do homem, é sobretudo dom de Deus, três vezes Santo (…) Quanto mais imitamos Jesus e lhe permanecemos unidos, tanto mais entramos no mistério da santidade divina. Descobrimos que somos amados por Ele de modo infinito e isto nos leva… a amar os irmãos. (…) Tudo passa, só Deus não muda. Diz um Salmo: ‘Desfalecem a minha carne e o meu coração; mas a rocha do meu coração é Deus, é Deus a minha sorte para sempre’. Todos os cristãos, chamados à santidade, são homens e mulheres que vivem profundamente ancorados nesta Rocha; têm os pés assentes na terra, mas o coração está já no Céu, morada definitiva dos amigos de Deus”.

* Religioso do Instituto Religioso Nova Jerusalém.




REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ______________________________________________________________________________________
CONSTITUIÇÃO: Instituto Religioso Nova Jerusalém, 2ª Ed. Fortaleza, 2002.
DICIONÁRIO TEOLÓGICO DA VIDA CONSAGRADA. São Paulo: Paulus, 1994.
OLIVEIRA, José Lisboa Moreira de. Viver os votos em tempos de pós-modernidade. São Paulo: Loyola, 2001.
PEREGO, Giacomo. Novo Testamento e vida consagrada. São Paulo: Paulus, 2010.
<http://www.agencia.ecclesia.pt/cgi-bin/noticia.pl?id=38668> Acesso em 30/06/2011.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Monaquismo

I - Origem do Monaquismo

A palavra “monaquismo” vem do grego monachós = aquele que está só; designa uma forma de vida cristã totalmente consagrada a Deus no retiro, no silêncio, na oração, na penitência e no trabalho.

Houve formas de monaquismo pré-cristão na Índia, na Palestina (os essênios), no Egito (os terapeutas, os neoplatônicos)... O monaquismo cristão tem seus fundamentos imediato no próprio Evangelho, onde o Senhor Jesus aconselha a deixar tudo e seguir incondicionalmente o Cristo. Pode-se crer, na base do testemunho de S. Paulo em 1 Cor 7, que já nas primeiras décadas do Cristianismo havia homens e mulheres que se abstinham do casamento para poder-se consagrar mais plenamente ao reino de Deus.

No século III essa modalidade de vida ascética tomou a forma eremítica (primeira forma de vida consagrada masculina); os cristãos retiravam-se para o deserto, tendo como modelo S. Antão (251-365); este é considerado o “Patriarca do monaquismo”; filho de família rica, ouviu o apelo do Senhor proclamando na Igreja e resolveu deixar tudo, retirando-se para o deserto do Egito, após ter providenciado a subsistência de sua irmã mais jovem. A “Vida de S. Antão”, escrita no século IV por S. Atanásio, exerceu grande influência sobre as gerações posteriores.

A vida eremítica teve expressões de grande generosidade: os monges viviam em silêncio, trabalhando com as mãos na confecção de cordames, cestas, esteiras e dedicando longas horas à oração; os jovens iam consultar os anciãos a respeito de seu tipo de ascese. Alguns ermitas se dedicaram a formas de penitência muito pessoais. Além de uma autêntica vida de oração e penitência, oferecida em favor da Igreja, os eremitas ou “padres do deserto” contribuíram em muito com a teologia e filosofia, através de escritos, que ainda hoje enriquecem a doutrina cristã. A vida eremítica era ainda forte grito profético no interior da Igreja, quando esta, após os tempos de perseguição se unia às forças e poderes do Império.

A vida eremítica foi cedendo aso poucos à vida cenobítica ou comunitária. Esta apresentava suas vantagens a saber: mais freqüente ocasião de se praticar a caridade e controle da comunidade sobre atitudes e comportamentos, às vezes esdrúxulos, dos monges eremitas S. Pacômio (+ 346) foi o primeiro organizador da vida cenobítica, que ele quis submeter a uma regra e a um superior chamado “Abade” (=Pai); a Regra visava a regulamentar a disciplina do monges na oração, no trabalho, no vestuário, na alimentação..., apresentando um caminho de santificação concebida pela sabedoria do Fundador. A casa dos cenobitas tomou o nome de monastérion em grego (donde mosteiro em português). O mosteiro data de 320; fundou-o S. Pacômio em Tabesini, a 570 Km ao sul da moderna cidade do Cairo.

Os monges eram quase todos leigos, isto é, não recebiam as ordens sacras; o número de sacerdotes nos mosteiros correspondia às necessidades do serviço interno da comunidade. Só na idade Média é que se difundiu o costume de conferir o presbiterato aos monges. São Pacômio era tão rigoroso neste particular que excluía por completo a possibilidade de ordenas algum monge, pois julgava que esto podia suscitar o desejo de honras e encargos de projeção. Conservam-se até hoje coletâneas de historietas e dizeres (Apoftegmas) dos Padres do Deserto, cuja leitura revela a sabedoria e o heroísmo daqueles cristãos.
Obs.:

Cenóbio: vem dos vocábulos gregos Koinós (=comum) e bios (=vida). "E, pois, a casa de vida comunitária, à diferença do eremitério (de eremos = deserto), lugar de vida solitária.

Anacoreta: vem dos termos gregos aná (para trás ) e chóreo (caminhar). Significa aquele que se retira ou o eremita.

Abade: do hebraico Abba (= Pai) designa, na origem um ancião que atingiu o cume da vida ascética.

Ascese: vem de Askéses no sentido pagão significa o conjunto de exercícios que mantém o vigor físico, intelectual ou moral.

Mística: vem de Mustikos as cosias que se relacionam como os mistérios, sobretudo os objetos rituais ou as pessoas iniciadas aos mistérios. No sentido cristão é toda experiência de intimidade com Deus e toda doutrina relacionada com esse tipo de experiência.


Fonte: Comunidade Shalom

domingo, 31 de julho de 2011

Santificação das relações de amizade - 1ª parte

A amizade pode ser um meio de santificação, ou um forte obstáculo para a perfeição, segundo sua natureza sobrenatural, ou natural e sensível. Falaremos, pois: 1º das amizades verdadeiras; 2º das falsas; 3º das amizades nas quais se mescla o sobrenatural com o sensível.

1º DAS VERDADEIRAS AMIZADES
Delas falaremos sobre sua natureza e suas vantagens.

595. A) Natureza. a) Por ser a amizade uma mútua comunicação entre duas pessoas, especifica-se de acordo com a diversidade de comunicações e dos bens que se comunicam. São Francisco de Sales explica muito bem [1]: “Quando mais excelentes sejam as que entrem nesta comunicação, mais perfeita será sua amizade Será certamente muito louvável se comunicas acerca das ciências; muito mais se comunicas acerca das virtudes, prudência, temperança, fortaleza e justiça; mas se esta mútua e recíproca comunicação foi sobre a caridade, devoção e perfeição cristã, Ó Bom Deus, que amizade tão preciosa! Será excelente porque vem de Deus, excelente porque vai a Deus, excelente porque seu vínculo é Deus, excelente porque durará para sempre em Deus. Que bom é amar na terra como se ama no céu, e aprender a amar mutuamente neste mundo como amaremos eternamente no outro!”

A amizade verdadeira em geral é, pois, um comércio íntimo entre duas almas para se fazerem bem mutuamente. Pode não passar de simplesmente decente, se os bens que os amigos se comunicam são de ordem natural. Mas a amizade sobrenatural é de uma ordem muito superior. É um comércio íntimo entre duas almas que se amam em Deus e por Deus, com propósito de se ajudarem reciprocamente a tornar mais perfeita a vida divina que possuem. A glória divina é seu fim último, e o adiantamento espiritual seu fim imediato, e Jesus o laço de união entre os dois amigos. A esse respeito, o Beato Etelredo pensava: “Ecce ego et tu et spero quod tertius inter nos Christus sit”, que Lacordaire traduzia desta maneira: “Não posso amar ninguém sem que minha alma se vá para trás do coração e Jesus esteja no meio de nós” [2].

596. b) De esta manera la amistad, lejos de ser apasionada, absorbente y exclusiva como la amistad sensible, se 'distingue por el sosiego, recato y mutua confianza Es un afecto sosegado, moderado, precisamente porque se funda en el amor de Dios, y participa de esta virtud; por esa misma razón es un afecto constante, que crece de continuo, al revés del amor apasionado, que tiende a flaquear. Va junta con un prudente recato: en vez de andar tras de las familiaridades y caricias, está siempre llena de respeto y de recato, porque no desea sino las comunicaciones espirituales. Este recato no estorba para la confianza; porque los amigos de esta clase se estiman bien mutuamente, y no ven en el otro sino un reflejo de las divinas perfecciones; tienen en el amigo muy grande confianza, que siempre es recíproca; lo cual trae consigo íntimas comunicaciones, porque el uno no desea sino comunicar en las dotes sobrenaturales del otro. Comunícanse, pues, los amigos sus pensamientos, propósitos y deseos de la perfección. Y, porque mutuamente quieren hacerse perfectos, no tienen reparo alguno en avisarse las faltas, y en ayudarse recíprocamente a corregirlas. La mutua confianza, que tiene el uno en el otro, impide que la amistad sea inquieta, absorbente y exclusiva; no llevamos a mal que nuestro amigo tenga otros amigos; aun nos gozamos de ello por su bien y por el del prójimo.

597. B) É evidente que uma tal amizade apresenta grandes vantagens. a) A Escritura a louva com freqüência: “O amigo fiel é uma defesa poderosa: quem o encontra, encontrou um tesouro... bálsamo de vida e de imortalidade é um fiel amigo: Amicus fidelis protectio fortis; qui autem invenit illum invenit thesaurum... Amicus fidelis, medicamentum viae et immortalitatis” [3]. Nosso Senhor nos deu o exemplo na amizade que teve com São João: este era conhecido como o discípulo “a quem Jesus amava, quem diligebat Jesus” [4]. São Paulo teve amigos, aos quais queria intensamente, sofre com sua ausência, e não tem mais doce consolo que voltar a estar com eles; assim se mostra desconsolado porque não encontrou Tito quando o esperava, “eo quod non invenerim Titum fratrem meum” [5] regozija-se quando o encontra: “Consolatus est nos Deus in adventu Titi... magis gavisi sumus super gaudio Titi” [6]. Pode-se perceber também o afeto que sentia por Timóteo, e quanto lhe consolava sua presença e lhe ajudava para o bem dos demais; por isso, lhe chama seu coadjutor, seu filho, seu querido filho, seu irmão: “Timotheus adjutor meus... filius meus... Timotheus frater.. Timotheo dilecto filio” [7].

A antiguidade cristã nos oferece também claros exemplos do mesmo gênero: uma das mais célebres amizades foi a de São Basílio e São Gregório Nazianzeno [8].

598. b) Destes exemplos se deduzem três razões que nos demonstram quão proveitosa é a amizade cristã, especialmente para o sacerdote dedicado ao ministério.

1) Um amigo é a defesa da própria virtude, protectio fortis. Temos necessidade de manifesta o mais fundo de nosso coração a um confidente íntimo; às vezes o diretor espiritual supre esta necessidade, mas nem sempre: sua amizade paternal é de outra classe que a amizade fraternal que desejamos. Necessitamos de um igual, com que possamos falar com ampla liberdade. Se não o tivéssemos, correríamos perigo de confiar segredos delicados a pessoas que não merecem nossa confiança, e as confidências que lhes fizermos, muitas vezes causariam problemas a eles e a nós.

2) É também um conselheiro íntimo, a cujo parece submetemos com prazer nossas dúvidas e dificuldades, e que nos ajuda a resolvê-las; um supervisor prudente e carinhoso que, vendo como nos portamos, e sabendo o que as pessoas dizem de nós, nos dirá a verdade, e impedirá que cometamos muitas imprudências.

3) É, por último, um consolador, que escutará com carinho o relato de nossas dores, e encontrará em seu coração as frases adequadas para suavizá-los e confortar-nos.

599. Já foi questionado sobre se convém fomentar essas amizades no seio das comunidades: se poderia temer que fossem um dano para o afeto que deve unir a todos os membros, e que seriam origem de invejas. Claro que se deve velar para que as tais amizades não prejudiquem a união comum, e sejam, não apenas sobrenaturais, mas contidas também dentro dos justos limites indicados pelos superiores. Mas, com estes requisitos, têm também suas vantagens, porque também os religiosos precisam de um conselheiro, de um consolador e de um supervisor que, ao mesmo tempo, seja um amigo. De todas as formas, nas comunidades, mais ainda que em outra parte, se deve fugir com muito cuidado de tudo o que parecer falsa amizade.

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1.Vida devota, P. IH, c. 19.
2.P. CHOCARNE, Vie de Lacordaire, t. II, c. XV.
3.Eccli, VI, 14-16.
4.S Joan., XIII, 23.
5.II Cor., XII, 13.
6.II Cor., VII, 6, 13.
7.Rom, XVI, 2 1; 1 Cor., IV, 17; II Cor., I, 1; I Tim., 1. 2.
8.S. FR. DE SALES, 1. cit., c. 19, trae otros muchos.


Fonte: Compêndio de Teologia Ascética e Mística, Adolph Tanquerey.